Cientistas conseguem isolar o vírus da Covid-19 a partir de fezes

A descoberta do vírus contagioso em fezes sugere mais uma via de infeção e explica o porquê de quase um terço dos infetados da Covid-19 experienciarem sintomas gastrointestinais como a diarreia.
27 de Maio de 2020 às 18:35
Covid-19 no intestino
Covid-19 no intestino

O vírus da Covid-19 foi isolado pela primeira vez a partir de pacientes com o novo coronavírus. A descoberta, feita por investigadores chineses, faz parte de uma pré-publicação divulgada na revista científica Emerging Infectious Diseases, que também tem na sua mais recente edição uma investigação separada que detetou o material genético do vírus da Covid-19, ARN, em superfícies de quartos de hóteis utilizados por pessoas em isolamento suspeitas de terem a doença.

O primeiro descreve o caso de um paciente de Covid-19 com 78 anos que tinha viajado até Wuhan, na China, e foi hospitalizado em Guangzhou a 17 de janeiro com sintomas típicos da Covid-19 como tosse e febres esporádicas. Após a sua condição ter piorado, a 22 de janeiro, começou a receber a ajuda de um ventilador. O mesmo paciente acabaria por morrer no dia 20 de fevereiro.

Entre os dias 27 janeiro e 7 de fevereiro, investigadores recolheram as suas fezes e detetaram Sars-CoV-2 em diferentes amostras. As mesmas indicaram maiores quantidades virais 17 a 28 dias depois de começarem os sintomas, em relação a amostras respiratórias mas não foipossível isolar o vírus destas amostras fecais – tendo sido apenas detetado fragmentos de ARN, vírus não infeccioso, nas fezes desse paciente.

Investigadores da Universidade de Guangzhou e da Universidade Sun Yat-sen, na China, recolheram ainda amostras fecais de 27 outros pacientes, 11 deles infetados pelo vírus. Destes, conseguiram isolar o vírus vivo a partir de dois deles, "indicando que o vírus viável em fezes é uma manifestação comum da Covid-19", referem.

"O isolamento de SARS-CoV-2 contagioso nas fezes indica a possibilidade de transmissão fecal-oral através de aerossóis de fezes", escrevem os investigadores, alertando para a higienização de ambientes hospitalares e para o risco de transmissão em espaços públicos e com pouco cuidados sanitários.

No início de maio, investigadores holandeses do Instituto Hubrecht descobriram que o vírus da Covid-19 era capaz de infetar células do intestino humano e multiplicar-se no órgão, o que podia explicar o porquê de quase um terço dos infetados da Covid-19 experienciarem sintomas gastrointestinais como a diarreia - e o facto de o vírus conseguir ser detetado em amostras de fezes.

Num segundo estudo, investigadores do Centro de Prevenção e Controle de Doenças de Guanghzou encontraram fragmento do ARN do vírus da covid-19 em oito de 22 superfícies de dois quartos de hotel frequentados por duas pessoas em isolamento suspeitas de terem o novo coronavírus.

Os residentes eram estudantes chineses a estudar noutros países e, mesmo estando assintomáticos, viriam a testar positivo ao segundo dia de quarentena. Depois de os dois terem sido hospitalizados, as suas amostras respiratórias e fecais mostraram altas cargas virais do novo coronavírus e ambos desenvolveram sintomas como febre e tosse.

O estudo indicou também que as superfícies que mais carga viral estava acumulada no quarto de hotel eram as almofadas e os lençóis da cama. Também toalhas e a colcha da cama demonstraram ter o vírus.

"Paciente pré-sintomáticos com alta carga viral podem facilmente contaminar um ambiente num curto período", escreveram investigadores, reconhecendo que o vírus não foi isolado ou replicado a partir das amostras.

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