A maior disputa da higiene na casa de banho: secador de mãos ou papel?

É um negócio milionário escondido nas casas de banho públicas de todo o mundo. Esta é a história da rivalidade entre os dispensadores de papel e os secadores de mãos.
Por Marco Alves 29 de Novembro de 2019 às 08:58
O sketch pode ver-se no YouTube. Chama-se "Mr. Bean na casa de banho", e, como é habitual com a personagem, acontece-lhe tudo com as coisas mais banais. No caso, lavar as mãos numa casa de banho pública. Há um problema com a torneira e Mr. Bean acaba por se molhar na zona da pélvis, um embaraço para quem vai para uma reunião importante. Bean usa primeiro o dispensador de papel, mas este tem apenas duas folhas. Não dá para secar nada. Por sorte, tem ao lado um secador de mãos, que também não lhe resolve o problema em tempo útil.

Sem saber, Mr. Bean trouxe para um sketch os protagonistas de uma guerra quase centenária que ninguém verdadeiramente sabe que existe (a não ser os interessados neste segmento de mercado): a disputa entre o papel e os secadores nas casas de banho públicas.

Ambiente versus saúde
Há muitos estudos internacionais publicados ao longo do tempo, alguns patrocinados por intervenientes no setor, mas as conclusões são mais ou menos transversais: o papel seca mais rápido e limpa melhor as mãos (no sentido clínico do termo), mas tem muito mais custos – é necessário repor papel regularmente, como Mr. Bean bem descobriu, e esse papel vem das florestas e tem de ser comprado pelos proprietários das casas de banho (escolas, restaurantes, hospitais, centros comerciais, etc.).

Quanto aos secadores, são campeões da poupança. O ar é de todos e é de graça – só se compra o aparelho (os preços em Portugal vão de modestos €60 até €1.200) e paga-se a eletricidade. Mas os secadores demoram mais tempo (é por isso que os modelos mais vanguardistas prometem uma secagem na ordem dos 10 segundos) e parecem não limpar tão bem.
Este é o grande problema. O ar que sai destes secadores é o ar que já está nas casas de banho. Primeiro é sugado e depois soprado nas nossas mãos. Um estudo de fevereiro de 2018 de investigadores de duas universidades americanas (Connecticut e Quinnipiac) mostra a dimensão do problema.

Os investigadores deixaram recipientes em várias casas de banho públicas durante dois minutos. E deixaram-nos depois nos mesmos locais, mas agora expostos a secadores de mãos durante 30 segundos. Os primeiros desenvolveram no máximo uma colónia de bactérias. Os segundos, chegaram a 254 colónias – diga -se a propósito que é mais provável acontecer uma contaminação quando a pele está molhada, mas que quase todos estes vírus e bactérias são inofensivos para o sistema imunitário. A indústria de secadores combate o problema investindo em filtros internos que purifiquem o ar.

Toalhas, papel e ar
O papel começou a concorrer com as toalhas em 1907 – estas ainda sobrevivem em locais de luxo, como hotéis de cinco estrelas, onde têm dimensões reduzidas e são de utilização única – e os secadores chegaram em 1922, quando o primeiro foi patenteado em Nova Iorque.

Chamava-se Airdry, era comercializado pela Airdry Corporation e assemelhava-se a um secador de cabelo colado à parede e acionado por um pedal. Os secadores só começaram a popularizar-se em 1949, quando George Clemens, um inventor de Chicago, lançou um modelo elétrico. Se hoje um dos problemas é o tempo que demora a secar as mãos, na altura passava os 60 segundos.

Estes secadores de ar quente (que um estudo do MIT, em 2011, concluiu ter tantos impactos ambientais como o uso de papel) só começaram a perder terreno em 1993, quando a Mitsubishi lançou um modelo que, em vez de evaporar a água, a soprava. É o método que predomina hoje, havendo modelos – como um da Dyson, um dos principais players mundiais – que prometem expulsar a água das mãos com "lâminas de ar a 692 km/h".

Segundo a Technavio, empresa de estudos de mercado, citada pelo The Guardian, em 2020 vão gastar-se mundialmente 4 mil milhões de dólares (3,6 mil milhões de euros) em papel para secar as mãos. Em secadores, 850 milhões (759 milhões) apenas, mas é um mercado que sobe dois dígitos desde 2014.
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