Vitamina D: uma hormona com “mecanismos de ação nos diferentes pontos do nosso organismo”

Cerca de 65% da população portuguesa tem falta de vitamina do sol. Fernando Ramalho, gastroenterologista, explica porquê.
Por Susana Pereira Oliveira 2 de Novembro de 2019 às 09:45
Fernando Ramalho, médico gastroenterologista e professor na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa
Fernando Ramalho, médico gastroenterologista e professor na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa

Celebra-se este sábado, dia 02 de novembro, o Dia Mundial da Vitamina D. Cerca de 65% da população portuguesa tem falta de Vitamina D e, em condições ideais, a exposição à radiação ultravioleta forneceria entre 80% e 90% das necessidades desta vitamina. Embora no verão a taxa da população portuguesa com carência de vitamina D possa baixar para 41%, a realidade é que durante este período do ano a população portuguesa continua a ser afetada.

Fernando Ramalho, médico gastroenterologista e professor na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, explicou porque razão tal acontece e desmitificou ainda outras questões associadas à vitamina D, a vitamina do sol.

O que é a Vitamina D e como é se produz?
A vitamina D é uma hormona produzida em 95% pela pele, pela ação do sol. Como explica Fernando Ramalho, essa "hormona tem mecanismos de ação em diferentes pontos do nosso organismo, em órgãos que são de facto fundamentais". Nem sempre é produzida nos valores ideais e, por isso, existe défice. "Quando existe défice de vitamina D, existem repercussões no nosso organismo", avança o médico.

Para o especialista, quando existe défice, o sistema imunitário dos seres humanos é afetado e realça que "ter défice de vítima D é preocupante porque está associada a um risco aumentado de osteoporose, Diabetes Mellitus, doenças autoimunes, como artrite reumatoide e esclerose múltipla, hipertensão arterial, doença coronária e tumores sólidos como da mama e do cólon por exemplo, doenças musculares  e a doença inflamatória intestinal como a doença de Crohn".

Principais benefícios
Uma das principais funções da vitamina D é ser responsável por regular o metabolismo ósseo. Esta vitamina é essencial para o desenvolvimento saudável e para a manutenção dos ossos e também dos dentes. Além disso, ter bons níveis de vitamina D permite uma boa absorção de cálcio.

Fontes de obtenção de vitamina D
O grande e principal produtor de vitamina D é o sol. No entanto, também é possível uma obter uma pequena percentagem – 5% - desta substância através dos alimentos gordos. Fernando Ramalho fala em alimentos como "peixes gordos (como sardinha, salmão, cavala e carapau) ou ovos escalfados", mas sublinha que "se queremos ter valores normais de vitamina D, não podemos contar só com os alimentos". "Os alimentos representam apenas 5% da produção de vitamina D.

Está hoje comprovado que a 95% da obtenção de vitamina D tem de ser feito através da pele", continua. Para atingir bons níveis de vitamina D é importante apanhar sol, pois se tal não acontecer não há reservas suficientes desta substância.

Diferenças dos níveis de vitamina D na população portuguesa
"As diferenças têm a ver com a forma como as diferentes populações se expõem ao sol", avança o gastroenterologista. Como explica o médico, "a produção de vitamina D só se faz quando há estimulação da pele pelos raios ultravioletas do sol. Essa estimulação só existe num período do dia, que é a parte matinal. De tarde a produção não se faz e por isso mesmo a população portuguesa tem um défice de vítima D muito significativa", pelo uso indiscriminado de protetores solares.

Em Portugal, "calcula-se que cerca de 65% da população portuguesa tenha défice de vitima D", revela Fernando Ramalho explicando que "isto acontece porque as pessoas não fazem, por exemplo, a praia na parte da manhã e porque quando o fazem a primeira coisa que fazem é proteger a pele por completo com os protetores solares".

O também professor na Faculdade de Medicina na Universidade de Lisboa refere ser importante o uso dos protetores solares, no entanto quando este é utilizado em excesso, "o benefício da vítima D é completamente perdido porque não há exposição solar". Basta uma hora de exposição matinal sem protetor para produzir vitamina D e é preciso, pelo menos, 25% de exposição da nossa pele ao sol.

Grupos que devem estar mais atentos
A carência de Vitamina D é particularmente relevante em alguns grupos de risco. Destacam-se os idosos, devido à menor capacidade de síntese cutânea (envelhecimento da pele), os obesos (por sequestração de vitamina D no tecido adiposo) e os indivíduos de pele muito escura, a par de fatores genéticos.

Para Fernando Ramalho, um dos défices mais preocupantes em Portugal é aquele "que se observa junto das crianças" e ainda "a população portuguesa com mais de 65 anos". O médico relembra ser "fundamental que as pessoas tenham a noção de que a partir de uma determinada idade, neste caso a partir dos 65 anos, é necessário fazer uma suplementação" para equilibrar os níveis de vitamina D.

Défice na juventude é preocupante
"Quando as crianças e jovens vão para a praia é importante existir uma exposição solar e uma hora é mais do que suficiente", diz o médico realçando que "o organismo reconhece o tempo necessário e suficiente para a produção de vitamina D e uma hora é suficiente".

É importante ter em conta que o organismo foi concebido para obter esta substância através do sol. "Se eu protejo o meu corpo com protetores solares em demasia e cada vez mais intensos é evidente que vai haver défice de vitamina D", remata Fernando Ramalho.      

Sinais e sintomas de carência de vitamina D
Existe um grande leque da população portuguesa que pode ter vitamina D em quantidades insuficientes sem nunca perceberem. Alguns sinais e sintomas podem contribuir para o diagnóstico, tais como sistema imunitário fraco, fadiga e cansaço contínuos, dores nos ossos e articulações, depressão, dificuldade em sarar as feridas, queda de cabelo e dores musculares.  

Existe a evidência de que a suplementação de vitamina D é um complemento para aumentar a recuperação da força logo após contrações musculares inabituais ou repetidas, que induzem persistente fraqueza muscular nos humanos e de maior dificuldade em recuperação, como acontece nos desportistas e nos atletas de alta competição.

Além disso, ainda que não existam outras doenças que se possam atribuir diretamente à falta de vitamina D, alguns estudos têm apontado para uma associação entre a deficiência de Vitamina D e a prevalência e gravidade de uma grande variedade de doenças. Isto porque a vitamina D funciona como uma hormona que regula o funcionamento de vários sistemas do nosso corpo e, após ser produzida na pele precisa de ser ativada, no fígado e nos rins, para exercer os seus efeitos.

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iscos de carência de vitamina D e o que fazer para prevenir
Os principais riscos existem a vários níveis. "É crucial saber-se que o nosso sistema imunitário depende da vitamina D, entre outras coisas. Se houver carência há um aumento de risco das infeções", exemplifica o gastroenterologista. Tal acontece mais no inverno, "não só porque há chuva e frio, mas porque há mais défice de vitamina D", devido à ainda menor exposição solar.

É importante ainda lembrar a população que o maior risco de enfarte de miocárdio, no inverno, também se deve a um maior deficiência de vitamina D.

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