“Temos de ir à praia sem proteção solar até ao meio-dia”

Os portugueses têm um défice de vitamina D de 65%, cerca de 50% no Algarve e 70% nos Açores. E num país com tanto sol, qual é o sentido disto?
Por Sónia Bento 11 de Outubro de 2019 às 12:58
Fernando Ramalho, gastrenterologista há mais de 40 anos, afirma que a Direção-Geral de Saúde tem a obrigação de não permitir que os dermatologistas alertem apenas para os cuidados com o sol e o uso de protetor solar, ignorando a vitamina D. "É muito importante apanhar sol de manhã, até ao meio-dia, pelo menos durante uma hora, que é o suficiente para termos bons níveis de vitamina D", explica.

Professor na Faculdade de Medicina de Lisboa, deu consultas no Hospital de Santa Maria durante mais de quatro décadas. Retirou-se em 2016, aos 70 anos, contra a sua vontade. "É um disparate não se aproveitar as pessoas com experiência e que ainda estão capazes, só porque atingiram o limite de idade", sublinha. Em três tardes por semana atende os pacientes no seu consultório, em Benfica, Lisboa, à segunda e à quarta joga ténis, à terça e à quinta vai ao ginásio. "Quem me vê a correr não diz que tenho 73 anos", afirma o médico que se dedica também à investigação do microbioma humano, a sua "paixão".

As campanhas de prevenção fazem com que as pessoas se encham de cremes de proteção solar. Isso não nos impede o acesso à principal fonte de vitamina D?
O sol é fundamental para termos bons níveis de vitamina D porque sem ela a capacidade de defesa do organismo fica diminuída. É isso que digo aos meus doentes, de modo a que transmitam também aos filhos e aos netos. Muitas pessoas não fazem ideia, mas uma das causas de cancro do cólon é o défice desta vitamina e já se começa a falar também no cancro da mama. Temos de ter open mind para perceber que a ciência está a mudar. Se a vitamina D existe é porque tem uma função.

Quais são as consequências dos baixos níveis de vitamina D?
Há mais ocorrências de enfartes do miocárdio no inverno do que no verão por haver menos sol – essa é uma evidência. Porque é que há mais infeções no inverno? Não é por estar mais frio é porque há mais défice de vitamina D, que é um imunomodelador. Mais do que isso, há hoje a certeza da sua importância em múltiplas patologias, como as doenças cardiovasculares e a esclerose múltipla. Por exemplo, na doença de Crohn, que é uma inflamação crónica do intestino, se eu suplementar os doentes com vitamina D melhoro a sua capacidade de diminuir as recidivas e de sair da crise.

Porque é que esta vitamina é tão importante?
Enquanto todas as outras vitaminas vêm de fora, esta provém do sol quase na totalidade e só 5% resultam da alimentação com peixes gordurosos, como a sardinha e o salmão, e do ovo escalfado (se for cozido ou em omeleta já destrói a vitamina D). Então, se as pessoas não apanharem sol, não há reservas. Por isso, é que ao nível nacional temos um défice de vitamina D de 65%, cerca de 50% no Algarve e 70% nos Açores. Num país com imenso sol, isto não faz sentido. Mas quem devia dar estas noções e fazer o alerta era a Direção-Geral de Saúde.

Como é que a radiação solar se transforma em vitamina D?
A radiação solar entra na pele (nos obesos é mais difícil porque parte fica nas células adiposas) e a maior parte vai para o fígado, onde é armazenada. A transformação em substância ativa é feita no rim e daí libertada diariamente no organismo nas quantidades necessárias. A vitamina D é uma substância que é pró-hormona, ou seja, depois de transformada passa a hormona e tem efeitos nos genes que se encontram nos ossos, no cólon, no intestino delgado, no coração ou no cérebro. No verão, temos de encher o reservatório de vitamina D e se tivermos a pele completamente protegida com cremes não vai entrar nada.

Porque existe tanta falta de informação sobre esta vitamina?
Se eu pertencesse à DGS, teria a obrigação de não permitir que houvesse colegas meus dermatologistas a passar a vida a alertar para o uso de protetor solar, como se a vitamina D não existisse. É preciso deixar claro que é importante a proteção, mas é tão ou mais importante apanhar sol até ao meio-dia, pelo menos durante uma hora, que é o suficiente para equilibrarmos os níveis de vitamina D. Temos de ir à praia sem proteção solar até ao meio-dia. Depois podem usar os protetores todos. Eu não me oponho a isso. Oponho-me é ao facto de as pessoas besuntarem as crianças de cremes quando chegam à praia de manhã.

Quais são os principais sintomas de carência?
Os mais comuns são o cansaço e vários tipos de infeções. Tenho aqui pacientes com infeções urinárias frequentes provocadas por falta de vitamina D.

Os idosos são o maior grupo de risco no défice de vitamina D?
São porque a pele já não processa a vitamina D e essa carência tem sido associada a um aumento da mortalidade geral por doenças cardíacas. As células que revestem o interior das coronárias têm um processo inflamatório que vai estando mais ou menos inflamado, dependendo dos níveis de vitamina D.

Porque é que os mais velhos já não absorvem a radiação?
Por mais que andem ao sol, a pele das pessoas mais velhas já não absorve a radiação e por isso precisam de ser suplementadas com umas gotas que custam 3 ou 4 euros e são de venda livre. Um septuagenário deve tomar três ou quatro gotas diariamente até ao fim da vida. Há dias, vi uma senhora de 78 anos, com 5,5 ng/ml de vitamina D [valores de referência: deficiência: <10; insuficiência: 10-30; suficiência: 30-100; toxicidade: >100], que é um défice gravíssimo e que vai ter consequências na sua saúde.

Grande parte das pessoas não tem noção da importância desta vitamina?
Não e é fundamental que a população tenha estas noções e em Portugal isso ainda não acontece. Tenho visto pessoas que se queixam, entre outras coisas, de cansaço e não é mais do que défice de vitamina D porque os músculos precisam dela. Está provado que as pessoas com défice morrem mais cedo. O que me espanta é ninguém falar disso. Até há quem diga que é só uma moda…

Porque é que alguns médicos não prescrevem a análise?
Porque não valorizam esta hormona, que tem funções bem reconhecidas. Esta substância, deficitária durante anos e anos, vai trazer problemas. Os idosos têm osteoporose porquê? Não é por serem velhos, é por falta de cálcio, e se não têm vitamina D não podem absorver o cálcio dos alimentos.

Para aumentar os níveis, basta apanhar sol numa esplanada?
O mínimo é ter 25% do corpo exposto. O ideal é sempre a praia, mas se formos para um parque com os braços, o peito e as pernas à mostra, já corresponde aos 25%. E volto a frisar que isso só acontece se for pela manhã, entre as 9 e as 12 horas, durante pelo menos uma hora. À tarde, já não tem nenhum efeito.

Outra das patologias que mais trata é o Helicobacter pylori. Que bactéria é esta e o que provoca?
O helicobacter vive na mucosa gástrica e é a única bactéria que resiste aos ácidos do aparelho digestivo. Há pessoas que são portadoras, muitas vezes uma vida inteira, sem terem sinais. Esta bactéria provoca úlcera gástrica e duodenal, gastrites e cancro no estômago. Antes de 1983, ainda não se conhecia o Helicobacter, então tratávamos a patologia como uma úlcera. A sua descoberta foi a revolução da gastrenterologia. A infeção por Helicobacter é uma das mais frequentes ao nível mundial, embora nos países industrializados haja muito menos infeções, cerca de 40%.

Como é que se transmite?
A maioria das pessoas infeta-se durante a infância, em grande parte através dos pais. Apanhei algumas crianças, de 8 e 10 anos, que se queixavam de "dores de barriga" e mais não era do que o Helicobacter. O contágio é feito pela saliva, fezes e vómito. Mas a fonte principal é a ingestão de alimentos contaminados.

Quais os principais sinais da presença do Helicobacter?
Suspeito da bactéria em duas circunstâncias. Quando há dispepsia – que engloba, a azia, o enjoo e dores de estômago – e quando existem flatulências, distensões abdominais e alguns refluxos gástricos. Outro sinal é quando há défice de ferro e diminuição de plaquetas. As pessoas com mau hálito também têm muitas probabilidades de serem portadoras da bactéria.

Como é que o Helicobacter é detetado e como se elimina?
Através de um teste respiratório, que indico a todos os meus doentes. O tratamento é uma associação de antibióticos, que dura 15 dias. E é muito raro haver reincidência.

Mesmo que não haja sintomas é importante erradicar a bactéria?
Não tenho nenhum doente que não tenha sintomas, senão não vinha aqui. Agora, há muita gente que vive com a bactéria desde muito cedo sem sintomas, mas isso é porque o organismo não reage contra a bactéria e ela não lhe provoca mal -estar. Nos casos em que há um pai ou uma mãe com um tumor gástrico, tenho de fazer o despiste nos filhos ou o risco de cancro aumenta.

A maior parte dos médicos ainda não diagnostica o Helicobacter?
Não, prescrevem um inibidor da bomba de protões. Isso é outra coisa que a DGS tinha obrigação de esclarecer: instalou-se nas pessoas a ideia de que se tomar três ou quatro medicamentos já tem de fazer proteção do estômago, o que é um disparate! Outro disparate, uma vergonha mesmo, é a DGS não se insurgir contra os anúncios de produtos que enganam as pessoas, como o Calcitrin. E a explicação é muito simples: alguém que tenha défice de vitamina D não absorve cálcio e esses produtos prometem coisas impossíveis.

Também prescreve probióticos aos seus doentes?
Suplemento probióticos [bactérias benéficas, que reforçam os mecanismos naturais de defesa do organismo com efeito sobre o equilíbrio bacteriano intestinal] em várias circunstâncias: obstipação, doença de Crohn e cólons irritáveis, que é onde se obtêm os melhores resultados. E tenho verificado uma coisa muito curiosa: as pessoas pouco depois de os começarem a tomar dizem-me que sentem uma melhoria significativa no estado de espírito. De facto, há vários estudos que mostram que o microbioma humano tem uma enorme influência no paradigma das neurociências. Vou fazer um estudo com um grande homem da psiquiatria, o professor Mário Simões, sobre a doença psiquiátrica e o microbioma humano. É aqui que está o futuro da Medicina.
Relacionadas
Notícias Recomendadas
Coronavírus

Mutações podem tornar a Covid-19 mais perigosa?

O novo coronavírus está a mudar em todo o mundo, Portugal incluído. E a mudança de material genético não é necessariamente má: ajuda a conhecer de onde veio o vírus, para onde vai, com que rapidez muda e se está a mudar para melhor, ou pior.

Marketing Automation certified by E-GOI

Copyright © 2020. Todos os direitos reservados. É expressamente proibida a reprodução na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, sem prévia permissão por escrito da Cofina Media S.A.
Consulte a Política de Privacidade Cofina.