Como vencer a fadiga extrema

Dor de cabeça, insónias, respostas agressivas, desmotivação e uma fadiga imensa. Se reconhece estes sintomas é porque está a sofrer de stress crónico e vai precisar de ajuda.
Por Susana Lúcio 23 de Janeiro de 2020 às 07:00
Cansaço
Cansaço
Cátia Dias vivia a vida ao extremo. Depois de se licenciar em Direito, aos 22 anos, começou a trabalhar e continuou a estudar. Fez o mestrado e tirou um executive master em Gestão. Até nas férias levava o portátil para responder a emails de clientes. "Nunca tirei um dia de férias pleno", admite a advogada e gestora de empresas. Em 2015 teve um bebé, mas não abrandou o ritmo: "Não era o tipo de pessoa que queria estar em casa a cuidar do filho." Acordava às 6h30, deixava a criança na ama, voltava para jantar às 21h e trabalhava, muitas vezes até às 4h. Ao fim de três anos chegou ao limite. "Estava muito cansada, tinha olheiras enormes e até sentia falta de ar quando ia à plataforma Citius ver o andamento dos processos judiciais." Teve de parar.

Cerca de metade dos trabalhadores portugueses já sentiram o mesmo. Segundo o Instituto de Investigação e Intervenção em Saúde Ocupacional, que há 11 anos realiza um barómetro com base nas respostas de 50 mil pessoas, entre 47% e 50% dos trabalhadores tiveram sintomas de exaustão. Entre estes incluem-se problemas de sono, irritabilidade, fadiga física, desmotivação, cefaleias, alterações no apetite, pessimismo e depressão. "A perturbação do sono, quando a noite não serve para repor a energia gasta, é um dos primeiros sinais", explica o psicólogo e responsável pelo instituto João Paulo Pereira. Os grandes grupos de risco são os trabalhadores da saúde e da educação. "Mas há um aumento da exposição ao risco na [área da ] justiça."

O cansaço extremo físico e emocional pode ser evitado quando há realização profissional. "Mas as pessoas não se sentem reconhecidas e o sistema não permite parar para pensar", diz João Paulo Pereira. "É por isso que somos o país europeu que mais ansiolíticos consome." Em 2017 foram vendidos 10,6 milhões de embalagens destes medicamentos usados para reduzir a ansiedade e 8,4 milhões de antidepressivos – quase o dobro da média europeia.

Parte do problema é o número de horas passadas no trabalho. Em 2017, foram 1.718 horas por ano, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Longe do que acontece na Alemanha, onde cada trabalhador trabalha 1.356 horas por ano.

As mulheres estão mais sujeitas a atingir o limite porque, para além da profissão, acumulam a maioria das tarefas domésticas. Segundo o estudo da Fundação Manuel dos Santos As Mulheres em Portugal, Hoje, publicado em fevereiro de 2019, 10% admitem sentirem-se esgotadas – destas 47% preferiam trabalhar se não precisassem do dinheiro.

O problema pode surgir em várias fases da vida, mas há estratégias para o evitar. Requer bons hábitos de sono, uma alimentação equilibrada e exercício físico regular. Mas, acima de tudo, exige disciplina em estabelecer períodos bem definidos para o trabalho e para o lazer.

A nova exaustão estudantil
O cansaço intenso pode instalar-se logo nos primeiros anos de faculdade. E ainda antes. "Tenho encontrado adolescentes com 14 anos com este cansaço extremo, por não saberem lidar com o stress e a frustração", diz a psicóloga clínica Bárbara Ramos Dias. A origem está na pressão exercida pelos pais e por eles próprios para que tenham um desempenho excelente. Isto aliado às horas passadas na escola e a estudar pode originar ansiedade de desempenho. As redes sociais, onde os amigos parecem conseguir tudo, também não ajudam. "Pode induzir na crença de que não são bons o suficiente. Isto pode levar à frustração, diminuição de autoestima e autoconfiança, sintomas depressivos, apatia, ansiedade que os pode impedir de agir", explica a psicóloga.
Na faculdade a pressão é ainda maior. "Os jovens chegam até nós em fim de linha", conta a psicoterapeuta Andreia Cavaca que presta apoio psicológico no Instituto Superior de Educação e Ciências. "Vêm com dores de cabeça, tonturas, ficam ansiosos na viagem até à faculdade, sentem falta de ar, não conseguem estudar e aos poucos instala-se um esgotamento físico e emocional." A exaustão traduz-se em tristeza, insatisfação e dificuldade em interagir. Alguns pensam mesmo em desistir do curso. "Sentem que lhes pedem mais do que eles conseguem dar."

Os alunos de cursos intensivos, como Medicina, correm mais riscos. E há tipos de personalidade mais propícias a atingir o limite. "Os estudantes que associam a sua autoestima ao desempenho académico estão mais propensos a estes sintomas", diz Bárbara Ramos Dias.

Foi o caso de Ana Bárbara. Perfeccionista e melhor aluna no secundário, a então estudante de Psicologia da Universidade de Lisboa começou a sentir-se desmotivada e deprimida no terceiro ano de faculdade. "Sentia que não era boa o suficiente, que estava sempre atrasada nos trabalhos", conta. As notas eram médias – 14 e 15 valores –, mas não eram o que sonhara. "Nem me apetecia estudar."

O volume de trabalhos pedidos também aumentou. "Acho que na escola havia mais apoio dos professores. Na faculdade estamos mais sozinhos e isso causou-me ansiedade", diz.

Recorreu a uma psicóloga: "Aprendi técnicas de respiração para controlar a ansiedade e a controlar as expectativas, a torná-las mais realistas." Também usou o mindfulness, uma técnica de redução de stress que inclui a meditação. "Quando começo a pensar que não vou conseguir, foco-me no presente, no que me rodeia e isso acalma-me."

Ao contrário de Ana Bárbara – que se licenciou o ano passado e fez um estágio na Universidade de Manchester – a maioria dos jovens tem dificuldade em assumir o problema e, muitas vezes, acaba por mentir aos pais e amigos sobre como está a correr o curso. "Há quem recorra a estupefacientes para lidar com o cansaço, mas isso não resolve", diz a psicoterapeuta Andreia Cavaca. Outros deixam de conseguir entrar na faculdade ou até de sair de casa.

A solução é difícil de aplicar. "Tem de se parar para pensar e reconstruir." E isso não significa desistir do curso. "Parar é ter um espaço de reflexão onde se analisa o passado para perceber como se chegou àquele ponto", salienta Andreia Cavaca.

A ansiedade do primeiro emprego
Há estudantes que encontram estratégias para lidar com o stress no curso e sentem dificuldades nos primeiros anos no mercado de trabalho. Foi o caso de Margarida (nome fictício), médica interna, de 29 anos. "Quando se faz aquilo de que se gosta, não pensamos que isso nos pode deixar doentes", diz. A médica pensava que era uma resiliente, mas no primeiro ano no serviço de oncologia, não conseguiu cumprir tudo o que lhe era pedido: as consultas externas, as visitas aos doentes internados, as urgências, o hospital de dia. "Lidamos com doentes muito vulneráveis que exigem atenção, mas estamos constantemente a contar o tempo. Rapidamente passam os 20 minutos estipulados para a consulta." Eram muitos os dias em que entrava no hospital de manhã cedo e saía à noite.
Depois, havia ainda o trabalho não assistencial: preparar relatórios, atualizações de protocolo do serviço, ler estudos e preparar casos médicos para apresentar. Em troca, pouco recebia. "Não há frustração maior quando nos dedicamos até ao limite e o trabalho não é reconhecido", diz.

Ao fim de poucos meses surgiram os primeiros sintomas: "Tinha tremores e taquicardia quando ia para o hospital e chorava facilmente nos corredores." Sofria de insónias e acordava cansada. "Cheguei a dormir 20 horas seguidas no fim de semana." Mal comia, muitas vezes uma sandes ao almoço e um copo de leite ao jantar. "Não tinha energia para cozinhar, só queria ir para a cama."

O cérebro diminui com o stress
Margarida sentia que trabalhava de forma mais lenta e não conseguia raciocinar. Um estudo publicado o ano passado na revista Neurology, indica que o stress crónico pode afetar a memória e reduzir o tamanho do cérebro. Investigadores da Universidade de Harvard avaliaram as capacidades cognitivas de 2.231 voluntários ao longo de oito anos e verificaram que os que tinham níveis mais elevados da hormona do stress, cortisol, tiveram resultados mais fracos nos testes de memória e tinham um volume cerebral mais reduzido do que os que tinham valores de cortisol normais. 

Margarida continuou a trabalhar e começou a isolar-se: "Ir ao ginásio passou a ser um sacrifício e preferia ficar em casa a ir jantar com os amigos." Foram precisos seis meses para ganhar coragem e pedir ajuda. "As pessoas pedem ajuda profissional, muitas vezes, por insistência dos amigos e da família", esclarece a psiquiatra no Hospital CUF Porto, Telma Falcão de Almeida. "Há casos que são indicados por entidades patronais, mas ainda é raro."

A exaustão afeta sobretudo profissões sujeitas a muita pressão como médicos, enfermeiros, assistentes sociais e jornalistas. "Mas cada vez é mais transversal", continua.

Margarida recorreu a uma psiquiatra em 2017 que lhe receitou ansiolíticos e antidepressivos. "Numa fase inicial melhorei, mas a fonte do stress mantinha-se e fiquei cada vez pior", recorda. Um ano depois, foi a própria chefia a sugerir uma consulta com a psiquiatra do serviço e a propor um período de descanso. Diagnóstico: burnout, a síndrome de exaustão física e emocional extrema.
Só quando ficou em casa é que teve noção da gravidade. "Voltei a jogar às cartas, mas não conseguia pensar nas jogadas", diz. Entretanto está a fazer terapia cognitivo-comportamental em que tenta conhecer -se melhor: "A opinião que tinha de mim própria não era correta."

Agora procura viver o presente. "O meu problema foi pôr o trabalho acima de tudo, as prioridades dos outros à frente das minhas. Tem de existir um equilíbrio. Pequenas coisas como apanhar sol numa esplanada no inverno ou fazer passeios de bicicleta pelo parque são imprescindíveis para mim agora."

Margarida ainda não regressou ao hospital. "Estou a preparar-me para voltar, com vontade de trabalhar mas reconhecendo os meus limites e respeitando as minhas necessidades. Para tratarmos dos outros precisamos de tratar de nós também."

Lidar com expectativas
Há pessoas mais suscetíveis de se esgotarem emocionalmente. Catarina Nunes, de 25 anos, era ansiosa e percebeu que tinha de pedir ajuda quando começou a acordar cansada. "Não tinha vontade para fazer o que quer que fosse" conta.

Os sintomas começaram em 2017 quando se mudou de Coimbra para o Porto. "Surgiu uma oportunidade de trabalho e aceitei", diz. Mas o contrato acabou por não ser assinado e Catarina bloqueou. "Não dormia bem. De manhã acordava e perguntava-me: ‘Vou levantar-me para quê? Não tenho nada para fazer.’" Sozinha, sem amigos, nem apoio familiar, passou dois meses isolada antes de recorrer a uma psicóloga.

Fez um programa de detox emocional e durante três semanas, quase todos os dias, realizou psicoterapia e exercícios de relaxamento. "Na terapia tentei conhecer-me melhor, identifiquei as minhas limitações e percebi o caminho que posso tomar." Mas primeiro procurou dormir melhor. "Cerca de 90% a 95% das pessoas com problemas emocionais apresentam alterações do sono", explica a psicóloga clínica Jatir Schmitt.

No programa procura-se a causa da insónia e trabalha-se a rotina e o ambiente para que o sono seja reparador. As principais queixas são cansaço físico, fadiga crónica e tristeza. "São pessoas que deixaram de se preocupar consigo e só vivem para o trabalho."
O objetivo do programa é retirar a carga emocional para que a pessoa seja capaz de gerir o stress. Catarina Nunes aprendeu a travar a ansiedade. "Agora oiço o meu corpo: se a respiração acelera, se me dói o estômago sei que estou a ficar ansiosa. Faço uns exercícios de respiração e quebro os pensamentos negativos."

O choque do primeiro filho
Não é só a sobrecarga no trabalho que pode provocar cansaço físico e emocional extremo. Os pais de bebés recém-nascidos correm o mesmo risco. Pior se forem dois bebés. Sónia e Hélder Santos começaram a acumular níveis de stress quando souberam que iam ter gémeos. "Lembro-me de estarmos os dois a dobrar roupa e de começar a chorar: ‘São dois, são dois’", diz Sónia Santos.

Depois de uma gravidez de risco, seguiu-se uma cesariana complicada que a deixou incapaz de tomar conta dos bebés. "Nos primeiros 15 dias foi o pai que tomou conta deles. Estava com muitas dores e não podia pegar-lhes ao colo", recorda. O descanso era quase nulo, quando a menina adormecia, ele acordava. Os primeiros sinais da falta de descanso foram emocionais. "A Miriam pedia mais colo, e lembro-me de chegar ao fim do dia culpada, por não ter pegado no David."

Os bebés reagem ao nervosismo dos pais e têm mais dificuldade em adormecer. "O bebé identifica o estado hiperalerta da mãe como um momento em que não é seguro adormecer", explica Constança Ferreira, terapeuta e fundadora do Centro do Bebé.

Os estados de exaustão ocorrem quando não são satisfeitas as necessidades básicas. "O organismo em privação tenta defender-se, aumentam os níveis de adrenalina e ficamos mais irritáveis", explica Constança Ferreira. "É nestas ocasiões que há mais acidentes e se tomam decisões erradas."

De repente, o casal que nunca discutia começou a gritar um com o outro. Foi quando Sónia e Hélder perceberam que tinham de pedir ajuda. Um estudo realizado em 2017 pela Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, avaliou o cansaço de 2.000 pais através de questionários. Publicado na revista Frontiers in Psychology, o estudo Exhausted parents: development and preliminary validation of the parental burnout inventory concluiu que 2% a 12% dos pais sofrem de burnout parental, ou cansaço físico e emocional extremo.
Foi esse o diagnóstico de Sónia e Hélder Santos. Pediram ajuda ao site Pais a Bordo, criado em 2018 pela psicóloga clínica Ana Gomes e pela mãe e blogger Inês Maia, depois de esta ter superado o que foi designado como "esgotamento materno". Na altura, mãe a tempo inteiro, Inês Maia isolou-se em casa com o filho depois de ter falhado o desejo de ser uma supermãe. "Chorava desalmadamente e implorava ao meu marido que não fosse trabalhar para não me deixar e ao nosso filho sozinhos", conta. O cansaço levou ao afastamento do casal e a atitudes irrefletidas: "O começar a perder a paciência, o levantar a voz sem querer, a primeira palmada sem intenção e o arrependimento eterno por estar a passar por uma fase destas em que um filho, principalmente um bebé, sente e absorve tudo." Foi acompanhada por um psicólogo, começou a sair de casa, a guardar tempo para si e recuperou ao fim de quatro meses. Contou tudo aos seguidores e quando recebeu pedidos de ajuda decidiu criar um workshop.

Estes sintomas da exaustão parental podem ser físicos – como cefaleias, despigmentação da pele e infeção urinária – aliados a uma fadiga intensa. "Mas os pais consideram este cansaço normal e tentam manter o mesmo ritmo", explica a psicóloga Ana Gomes. A perceção irrealista de conseguirem fazer tudo o que faziam antes e a frustração que sentem ao perceberam que é impossível é outro sintoma. Isto provoca uma despersonalização. "Os pais perdem a paciência mais rapidamente, respondem com sarcasmo e ironia. Deixam de ser as pessoas que eram e isso é notado pelos familiares."

O problema é que, ao contrário do burnout profissional, não é possível retirar os pais dos filhos para eles recuperarem do cansaço. A solução passa por incentivar as mães a saírem mais de casa e a combinarem encontros com outras famílias com crianças para que possam falar com adultos. "É fundamental pedir ajuda, ter alguém que ajude nas tarefas para os pais descansarem", continua.
Foi isso que Sónia e Hélder fizeram. "Pedimos aos meus pais para ficarem com os bebés algumas horas. Não nos lembrámos disso porque achávamos que a responsabilidade de cuidar deles era nossa", diz Sónia Santos. Também redefiniram algumas das tarefas para a mãe tomar banho sozinha, ir às compras e até brincar com os filhos. Quando as crianças foram para o infantário, aos 9 meses, a pressão aliviou. "Ajudou ir trabalhar, ainda que chegue cansada ao fim do dia", diz a operadora de logística. Agora, conseguem arranjar tempo para ir almoçar e passar uma tarde sem as crianças. "Os resultados surgiram aos poucos."

O risco de não saber parar
Cátia Dias, de 34 anos, também ficou esgotada quando foi mãe, mas o problema vinha de trás. Advogada, era muito ativa e não conseguia estar desocupada. Tirou um mestrado em Gestão e fez cursos em Terapias Alternativas. Em 2015, quando foi mãe, não abrandou, apesar das noites mal dormidas. "Agora olho para trás e vejo que o Bernardo não dormia por causa da minha energia", admite. Quando em 2017, para além dos clientes que tinha, assumiu um cargo numa consultora tudo se precipitou. "Os meus dias começavam às 6h30 e terminavam depois das 23h. Às vezes tinha 50 chamadas não atendidas." Começou por culpar o filho, que achava muito nervoso e dependente: "Perguntei à psicóloga da clínica pediátrica onde ia se o devia colocar no ioga, apesar de achar que parte da culpa era minha." A especialista respondeu-lhe que era ela que precisava muito de fazer ioga.

Foi quando Cátia percebeu que o nível de trabalho que assumira se tornara tóxico e que o filho estava a reagir à ausência da mãe. "Às vezes, entrava na Via de Cintura Interna, no Porto, e tinha de parar o carro porque não me lembrava para onde ia." Em julho de 2018, admitiu à médica de família estar muito cansada. Ficou de baixa um mês, mas não foi suficiente. "Os clientes continuavam a ligar-me." No entanto, notou diferenças no filho. "Tornou-se uma criança mais calma porque eu estava mais tempo em casa."

Ainda assim, não aceitou que estava com um esgotamento. "Achava que não era burnout porque era muito exigente e o trabalho era a minha vida." Em Novembro, a empresa pressionou-a a voltar, os clientes começaram a ligar várias vezes e Cátia Dias sofreu um ataque de pânico. "O meu corpo desligou e caí para o lado. Não conseguia andar, tinha a visão turva, não me conseguia mexer." Aconteceu-lhe mais duas vezes, uma delas fora de casa. "Pensava que estava melhor, mas regredi, estava pior do que no início", diz.

Agora está a fazer um programa de redução de stress através do mindfulness. "É um conjunto de práticas que cultivam a consciência que emerge quando pomos a atenção no momento presente com propósito e sem julgamento", explica a psiquiatra Telma Falcão de Almeida e professora de Mindfulness pela Universidade de Massachusetts, nos EUA. "É uma forma de aprender a responder aos agentes do stress e ter mais capacidade de regulação dos sentimentos e dos pensamentos." O programa, de oito sessões semanais feito em grupo, inclui meditação sentada, ioga, debate sobre os padrões do stress e body scan – um momento em que, deitados, os pacientes trabalham a consciência e estar no momento mais presente, focando a atenção em todas as partes do corpo, dos dedos dos pés à cabeça. "A ideia é que este conjunto de práticas se transforme num estilo de vida de modo a estarmos mais presentes na nossa vida", explica a psiquiatra.

A eficácia do programa tem sido avaliada por vários estudos científicos. Um dos mais recentes, intitulado Mindfulness-based interventions for psychiatric disorders: A systematic review and meta-analysis, publicado em 2018 na revista Clinical Psychology Review, avaliou os efeitos do mindfulness em 12.005 pessoas com desordens psiquiátricas. Os resultados indicam que o programa obteve melhores resultados do que os tratamentos psiquiátricos.

O programa levou Cátia Dias a mudar de vida. "Gosto muito de Direito, mas a prática judicial causou-me um impacto negativo", diz. Decidiu não regressar à consultora. Com o mindfulness aprendeu a caminhar calmamente e a viver no presente: "Fazemos exercícios de ioga, meditação e técnicas de relaxamento que ajudam a manter o foco." E incluiu estas práticas no dia a dia. "Tenho mais paciência e tento reagir com consciência. Se o meu filho chorar tenho mais calma a tentar perceber o que se passa", garante.

O peso da responsabilidade
Há seis anos que André Oliveira sentia que carregava o peso do mundo sobre os ombros. Tornara-se intolerante, uma pergunta simples sobre o seu dia merecia logo uma resposta ríspida. Se fosse contrariado, explodia e entrava em conflito. Quando a companheira o chamou a atenção, reconheceu que tinha um problema e tentou resolvê-lo sozinho. "Tentei arranjar um hobby. Tinha feito vela quando era miúdo e decidi voltar a fazer", conta. "Mas já não tinha o mesmo valor."

A profissão, diretor industrial, responsável por todo o planeamento da empresa, da produção à logística, parecia ser o problema. "É necessário capacidade de planeamento e tomada de decisões e uma adaptação às várias pessoas, com diferentes tipos de escolaridade, com que se trabalha", explica. "A pressão é conseguir mais resultados com menos recursos." Chegou a trabalhar das 7h às 24h. Foi acompanhado por uma psicóloga dois anos, sem grandes resultados. Seguiu-se um neurologista que lhe receitou um ansiolítico e um antidepressivo para dormir melhor. "Tinha o sono muito agitado, estava sempre a pensar no trabalho, a antecipar as reações de outras pessoas."

A medicação resultou alguns meses, mas não resolveu a questão. "Andava meio anestesiado, sentia -me menos energético e menos produtivo." Há um ano recorreu à psiquiatria que, para além dos medicamentos, lhe receitou atividades e também o programa de mindfulness. "Faço uma caminhada de 30 minutos ao fim do dia. Gosto de ir até à praia, estar atento à respiração para me abstrair dos problemas. E a seguir ao almoço reservo 15 minutos só para mim, sem interrupções."

As pausas durante o dia de trabalho são importantes para lidar com o stress e para aumentar a produtividade, garante o professor catedrático de Fisiologia da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, José Soares. No seu livro, Reload, Menos Stress, Melhor Performance, publicado em 2018, o agora consultor de empresas explica que o corpo não está preparado para trabalhar sem interrupções. "Os intervalos são formas de repormos a energia gasta nas tarefas que necessitam de maior dispêndio energético", escreve. Para recuperar, recomenda uma paragem que inclua sair da frente do computador a cada 60 a 90 minutos.

Para lidar com o stress, recomenda usar a mesma fórmula aplicada à gestão da performance desportiva no local de trabalho: recover (recuperar), refuel (alimentação), rethink (repensar) e reenergize (energizar). A ideia é conseguir recuperar a energia, mantê-la em níveis ótimos através da alimentação, aprender a gerir o stress e energizar com exercício.

André Oliveira está mais sereno, mas também porque limitou as horas de trabalho. "Hoje dificilmente trabalho depois das 19h e tenho dois telemóveis, o profissional fica em silêncio quando chego a casa." Também tem cuidado para não estimular o cérebro antes de se deitar e deixou os jogos de computador à noite.

Anos de sobrecarga de trabalho
A dificuldade em dormir foi um dos sintomas que alarmou Maria (nome fictício). A assistente social, de Lisboa, começou a acordar à noite e ficava uma a duas horas sem conseguir adormecer. "Achava que o cansaço era normal. Acordava muito cedo, pelas 6h10, para chegar ao local de emprego a 45 minutos de distância, e só chegava às 19h. O meu marido ajudava-me, mas entre dar banho à minha filha e fazer as tarefas da casa, deitava-me perto da meia -noite", conta. Os primeiros sintomas surgiram há 10 anos. O pior foi quando começou a sentir arritmias.

As alterações da frequência cardíacas podem ser um dos sintomas de cansaço extremo. "Os sinais de alarme físicos incluem ainda alterações gastrintestinais, cefaleias, perturbações do sono, aumento da tensão arterial", enumera a psiquiatra Telma Falcão de Almeida.

Maria estava tão cansada que chegou a dormir no gabinete de atendimento durante meia hora. Os problemas que tentava resolver – violência doméstica, alcoolismo, pais com filhos toxicodependentes – começaram a pesar-lhe. "Bastavam quatro casos graves para ficar esgotada. Chegava a casa e enfiava-me na cama."

Para além disso, começou a acumular mais tarefas na empresa, fazia a comunicação e até trabalhava na receção. "Reclamei, mas responderam-me que fazia parte do espírito." Tinha tanto trabalho que se esquecia de comer. "Não tinha fome", diz.

Mas a alimentação é fundamental para gerir o stress e o cansaço extremo. "Quando há picos de stress há uma libertação de hormonas, como a adrenalina, que ativa ciclos enzimáticos de forma mais rápida, em que o nosso sistema de absorção dos nutrientes é acelerado", explica o nutricionista Pedro Queiroz. "Por isso, as pessoas chegam a casa e há picos de apetite, geralmente por doces."

Os sintomas de Maria agudizaram -se. Estava magra, tinha dores de cabeça, crises de choro no trabalho, quando alguém batia à porta do seu gabinete estremecia e ficava com falta de ar quando recebia emails. Há três anos ficou com sintomas de incontinência urinária. Depois de uma série de exames, o urologista recomendou uma consulta de psiquiatria. "Só nessa altura é que parei para pensar no que estava a viver."

Está de baixa. "Sentia a cabeça vazia, já não conseguia ouvir os problemas dos outros." Não foi difícil parar e passou as primeiras semanas na cama. Também recorreu ao mindfulness e além da meditação e dos exercícios de respiração, faz caminhadas todos os dias. "Quero voltar a trabalhar, mas com regras bem definidas."
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