Acabar com os mitos da comida das crianças

Sumo de fruta é o mesmo que comer uma maçã. Um iogurte serve de sobremesa e o açúcar deixa os miúdos hiperativos. A alimentação infantil descodificada
Por Vanda Marques 13 de Novembro de 2019 às 15:33

O prato já está frio, o frango sem graça mas o duelo não abranda. De um lado temos a persistência inabalável de uma criança, do outro a paciência sem limite dos pais. Mas se aqui a persistência não traz grandes vantagens, noutros casos desiste-se ao primeiro esgar de nojo que a criança faz perante um prato de ervilhas. Duas estratégias erradas, dizem os nutricionistas.

No primeiro caso não se deve obrigar a comer tudo o que está no prato – as crianças sabem até quando têm fome. Na outra situação, deve insistir porque é só pela repetição que se treina o palato. Dois mitos antigos. Mas há mais. "Ainda existe muita contrainformação. Por exemplo, a ideia de que a criança deve ser gordinha, quando hoje sabemos que ter peso a mais na infância representa um risco de vir a ser obeso e de ter problemas cardiovasculares", explica Nuno Borges, da Associação Portuguesa de Nutrição (APN). Coisas tão simples como dar um iogurte como sobremesa, por exemplo, em vez da fruta, aumentam a quantidade de açúcar que a criança ingere por dia.

Os cuidados com a alimentação dos miúdos devem começar muito cedo. Por esse motivo, a Associação Portuguesa de Nutrição criou um ebook –disponível em www.apn.org.pt – sobre os primeiros 1.000 dias do bebé. Essa contagem começa ainda na barriga da mãe. No livro referem até que a vida intrauterina tem influência na saúde, por exemplo, em doenças como diabetes, hipertensão arterial. A alimentação das grávidas merece especial atenção. Conselhos como comer peixe gordo três vezes por semana ou nunca eliminar grupos alimentares completos são dicas úteis. Depois de as crianças nascerem, entra-se noutra fase e é quando surgem vários mitos.

Como explica o médico João Júlio Cerqueira, que criou um blogue de divulgação científica e de caça aos mitos Scimed, um deles é a diversificação alimentar. "Ao contrário do que era recomendado anteriormente, a diversificação alimentar dos bebés logo aos 4 meses parece ter vantagens. Além de ser segura, a introdução precoce de alimentos não diminui a capacidade de as mulheres continuarem a amamentar, poderá diminuir o risco de anemia nas crianças e melhorar a qualidade do sono." E acrescenta outra ideia errada – a introdução tardia de alimentos alergénicos. "A introdução precoce de alimentos alergénicos (não antes dos 4-6 meses, obviamente) poderá mesmo ajudar a diminuir o risco de alergias alimentares." Mas mitos não faltam. Conheça nove mitos.

As bebidas vegetais são equivalentes ao leite de vaca?
Não. A nutricionista Teresa Carvalho, da APN, aponta que o leite de vaca pode ser incluído na alimentação da criança após o primeiro ano de vida, mas não se deve apostar em bebidas de amêndoa ou aveia. Porquê? "As bebidas vegetais apresentam diferenças nutricionais relevantes face ao leite de vaca. Pois, à exceção da bebida de soja, têm um teor proteico e lipídico baixo, a par de um teor em açúcares simples, por vezes, elevado." Nuno Borges sublinha que tirando a bebida de soja, as restantes têm mais açúcar do que o leite normal. Teresa Carvalho alerta ainda para o caso da bebida de arroz. "Não é recomendado o seu consumo por lactentes e crianças, de modo a reduzir a exposição ao arsénio inorgânico (metal pesado com potencial risco para a saúde)."

O mel como é um açúcar natural pode ser consumido com maior regularidade?
À primeira vista, até poderíamos escolher o mel. Mas atenção: "O mel não deve ser introduzido no primeiro ano de vida, não só pelo seu teor em açúcar, como também pela possibilidade de presença de esporos de Clostridium botulinum, um microrganismo patogénico associado ao botulismo infantil. Por isso, é recomendado especial cuidado com a contaminação por via cruzada devido ao contacto do manipulador/ utensílios com mel com o lactente ou os seus utensílios", diz Teresa Carvalho. A especialista da APN acrescenta ainda que durante o primeiro ano de vida não devem consumir alimentos com açúcar adicionado. Só após os 2 anos poderão comê-los, mas sempre sem ser regular. Nuno Borges lembra ainda que os refrigerantes são uma das maiores tentações das crianças e adolescentes. Aliás, 43% dos adolescentes consomem refrigerantes todos os dias, segundo o Relatório do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável 2017. "Além de terem bastante açúcar, são absorvidos de forma mais rápida pelo organismo. E estão associados a cáries, peso excessivo e a um descontrolo metabólico."

O açúcar deixa as crianças hiperativas?
O médico João Júlio Cerqueira elege como um dos maiores mitos da alimentação infantil a relação entre açúcar e hiperatividade. "O açúcar não parece alterar o comportamento das crianças. A perceção da alteração do comportamento deriva do efeito placebo by proxy e correlações sem causalidade demonstrada. O médico esclarece que os pais, quando sabem que a criança comeu açúcar, acabam por classificar o comportamento da criança de forma mais negativa. "Há estudos que demonstram isso mesmo, em que dizem aos pais que as crianças comeram açúcar e estes classificam o comportamento da criança de forma negativa quando, na realidade, as crianças não tinham ingerido açúcares. Também fizeram ensaios randomizados duplamente cegos, em que colocaram as crianças numa dieta com açúcar ou com adoçantes (aspartame ou sacarina) durante algumas semanas e não foram encontradas quaisquer diferenças de comportamento."

Se a criança não gosta, não come?
Teresa Carvalho desfaz o mito de que se não se gosta à primeira não se tenta mais. "É importante incentivar novas tentativas de consumo e inovar a forma de apresentação dos alimentos que não foram devidamente aceites nas primeiras experiências da criança. Só após vários contactos com o alimento, nas suas mais variadas formas de apresentação e preparação, é que podem ceder e respeitar as preferências da criança." E dá exemplos: se não gostou de feijão vermelho deve-se dar outros tipos de feijão e outras leguminosa, como o grão de bico.

Copinho de leite ao deitar?
Um hábito que descansa os pais, que pensam ter ali uma garantia de noite descansada, mas que é desadequado, defende Teresa Carvalho. "Atendendo que, na idade infantil o intervalo entre o jantar e a hora de dormir é habitualmente curto não se justifica a oferta da ceia, assim como acordar a criança para a alimentar." Além disso, refere que comer ou beber, ainda que seja apenas leite, antes de dormir pode aumentar o risco de cáries dentárias, caso não lave os dentes.

Comer tudo e em descanso? Basta um tablet ou telemóvel
Ficam ali meio hipnotizadas e nem sabem bem o que se passa à sua volta. É a altura perfeita para dar o jantar sem birras. Será correto? "As crianças não devem ser distraídas com meios lúdicos, de forma a conseguirem reconhecer os seus sinais de forme e saciedade, os quais devem ser respeitados pelos pais", explica assessora técnica na APN, Teresa Carvalho.

Aleitamento materno até aos dois anos ou mais?
Vamos entrar num terreno fértil em desentendimentos e discussões acesas em redes socais. A nutricionista Teresa Carvalho defende que existem "vantagens em manter o leite materno/fórmula infantil até aos 24 meses ou mais". A Organização Mundial de Saúde recomenda que o aleitamento seja até aos dois anos. Mas o médico João Júlio Cerqueira tem uma posição diferente. "Nos países desenvolvidos, as únicas vantagens devidamente comprovadas da amamentação é a diminuição das infeções respiratórias e gastrointestinais, na amamentação até aos 4-6 meses. A partir daí, a amamentação não parece trazer grandes benefícios ao bebé. A maioria dos estudos que demonstram a existência de benefícios são estudos observacionais, que não controlam de forma devida os fatores confundidores." E explica que quando foram feitos estudos dentro das mesmas famílias (com irmãos que foram amamentados, comparando com irmãos que não foram amamentados), os benefícios tendiam a desaparecer. "Quem quiser amamentar, que tenha todas as condições para o fazer, mas não é justo culpabilizar quem não o faz. Ser bom pai ou boa mãe vai muito para lá da amamentação."

Sumos de fruta = fruta?
Até pode parecer que sim, mas não passa de um mito. "Os sumos de fruta, ainda que sejam naturais, não oferecem os mesmos benefícios nutricionais que a fruta, muito particularmente ao nível do conteúdo em fibra e em fitoquímicos e na sensação de saciedade, para a qual contribui o teor de fibra e o processo de mastigação da fruta", explica Teresa Carvalho. A nutricionista refere também que no caso dos lactentes (até aos 2 anos), os sumos de fruta devem ser excluídos devido à elevada acidez e efeito laxante. E vai mais longe: "Além disso, os sumos naturais são uma forma de deseducação do paladar, incentivando o consumo de alimentos doces, mais propriamente bebidas, o que pode levar à rejeição da água."

Já o médico João Júlio Cerqueira refere que pode ser uma boa solução nalguns casos. "Apesar de ser mais do que aconselhado evitar as bebidas/refrigerantes açucaradas, os sumos 100% fruta poderão ser uma boa maneira de atingir um consumo diário apropriado de fibras e vitaminas provenientes desta fonte, não parecendo estar associado a um risco importante de aumento de peso das crianças. Portanto, o seu consumo moderado é recomendado, de acordo com a evidência existente atualmente."

 

Notícias Recomendadas

Marketing Automation certified by E-GOI

Copyright © 2020. Todos os direitos reservados. É expressamente proibida a reprodução na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, sem prévia permissão por escrito da Cofina Media S.A.
Consulte a Política de Privacidade Cofina.