Notícia

Obituário

Jaime Fernandes, o senhor da voz (1947-2016)

29.11.2016 11:29 por Dulce Neto
Histórico da rádio, esteve na criação da RFM, da Antena 3, da TSF. Autor do nome Oceano Pacífico, foi gestor sem nunca perder o tom tranquilo de uma voz inconfundível, mesmo quando perdeu um filho de 20 anos
Foto: Luis Grañena
Foto: Sábado

Foi há pouco mais de um mês. Esperavam por ele numa quinta-feira como de costume, para gravar o programa a Voz do Cidadão, na RTP, onde era provedor do Telespectador desde 2013. Passava das 10h e nada. Uma hora depois, o choque: Jaime Fernandes morrera aos 69 anos. Em casa, um AVC sem remédio apagara a voz marcante da rádio portuguesa, tão única quanto a serenidade que o definia, tão pacífica quanto o programa mais antigo da rádio portuguesa.

Sim, Jaime Fernandes baptizou o célebre Oceano Pacífico, nome que nasceu às seis e meia de uma manhã "bonita". Nesse dia seria apresentada a nova grelha da RFM, canal que ele ajudara a criar. "Eu estava aflito. Faltava-me o nome para um programa. Ia em direcção à Rádio Renascença e estava uma manhã fabulosa, com o rio ao fundo, sem trânsito e pensei ‘está tudo tão pacífico’ e resolvi aí o problema do programa", contou numa entrevista.

Este é só um pormenor do seu currículo: autor e apresentador de programas na RDP, nas rádios Comercial e Renascença, bem como na RTP, esteve na fundação da RFM, da Antena 3 e da TSF. Assumiu a direcção de programas na Comercial (1981-1993), e na RTP (de que foi gestor um ano), a direcção da RTP Internacional e África até se reformar, e a administração da RDP (1989-1994), e da Meo Arena, gestora do Pavilhão Atlântico. (Sempre gostou de negócios, geriu aliás uns grandes armazéns do sogro, da Lanalgo). Também fez publicidade e, militante do PSD, deu a voz a alguns tempos de antena do partido. Mas era na rádio que via o seu projecto e destino: "Do que eu gosto mesmo é da rádio; da rádio e de fumar; não hei-de morrer sem voltar à rádio e a fumar", citou-o António Macedo na sua página de Facebook.

O gosto começou em miúdo. Nascido em Lisboa como Jaime Octávio Pires Fernandes, a 23 de Junho de 1947, aos 13 anos fazia teatro infantil radiofónico na Emissora Nacional. Aos 16, já com voz de homem, passou a locutor da antiga Lisboa 2 (antecessora da Antena 2). Aos 18 seguiu como voluntário na Força Aérea para a guerra colonial, em Moçambique. Participava das operações que recolhiam feridos e mortos "o que lhe deixou marcas", recorda à SÁBADO o amigo João David Nunes.


Aí colaborou com a Rádio Clube de Moçambique e conheceu José Freire que, no regresso de África, o levou para o Rádio Clube Português, do qual seria o primeiro vice-presidente eleito pelos trabalhadores no pós-25 de Abril. Começava assim uma longa carreira que faria dele um histórico da rádio.

Grande divulgador de música (Dois Pontos; Country, A música da América, na Comercial, ou Programa 4, na RDP, e Uma Estranha Forma de Vida, Uma história da Música Popular Portuguesa, na RTP são exemplos de programas), dizia: "Da música não se gosta, sente-se."

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De direita, com muitos amigos de esquerda, (António Macedo era o "25 de Abril", Viriato Teles o "1º de Maio" e ele o "25 de Novembro") foi sempre do Sporting (o segundo nome vinha do padrinho Octávio Barroca, que jogou no clube) e contra as touradas. "Gostava muito de comer", diz João David Nunes. Alheiras com grelos não fazem mal, e melão à sobremesa não engorda, garantia.

Paciente, gentleman, com os pés em cima da secretária para relaxar, sabia "pôr as pessoas a funcionar sem levantar a voz", adianta à SÁBADO Viriato Teles. Jaimex, como lhe chamavam os amigos, nunca perdeu a calma, mesmo quando o filho de 20 anos morreu num acidente de mota. Coincidência: partiu a 27 de Outubro, o dia do aniversário do filho.


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