Sem-abrigo português descoberto no Colombo faz capa da Vogue

Lucília Galha , Marco Alves 13 de julho de 2018

A história de vida de Vítor Leitão, de 62 anos, é destaque em Espanha. Continua a viver com dificuldades e à procura de um emprego na sua área

Há mais um manequim português a ser notícia internacionalmente, este por motivos menos habituais. Vítor Leitão, sexagenário, longas barbas brancas e olhos azuis, faz a capa deste mês da Vogue Portugal. A história começou em 2013 e é contada à SÁBADO pelo homem que o descobriu a "vaguear" no Centro Comercial Colombo, em Lisboa.

É uma coisa que lhe acontece quase todos os dias: encontrar alguém na rua que podia fazer parte da sua agência. Manuel, 62 anos, foi uma dessas pessoas. Aquele homem de olhos azuis e com barba e cabelo compridos despertou-lhe a atenção. Abordou-o. "Desculpe, o senhor fala português?", perguntou-lhe Frederico Canto e Castro.

E depois continuou: "Tem um ar que se encaixa em publicidade." Manuel olhou para ele com um ar desconfiado, mas achou graça à ideia. Aquela abordagem era inesperada: não só porque tem apenas 1,63 metros e pesa 82 quilos, como pela situação em que se encontrava. Naquela altura, em Agosto de 2013, Manuel vivia numa instituição que dá apoio a sem-abrigo.

Os únicos bens que tinha eram uma mala com um kit de higiene e roupa. Passava o tempo a vaguear pela cidade: se o tempo estava bom ficava num jardim; senão, optava por centros comerciais. Estava a ver uma montra num centro de Lisboa quando foi abordado por aquele rapaz de calções, ténis e óculos de sol.

Os critérios que à partida teriam excluído Manuel de uma agência de modelos convencional determinaram que se tornasse agenciado da Sonder - uma startup que (ao contrário de quase todas as outras neste ramo) não procura modelos. "Nunca nos afirmamos como uma agência de modelos, somos uma agência de pessoas autênticas", diz Frederico Canto e Castro, 24 anos, o fundador. "Procuramos pessoas com as quais nos identificamos no dia-a-dia, mas que tenham alguma coisa especial", explica.

Como Manuel, que hoje, além de já ter saído da rua e arranjado um emprego na distribuição de peixe, já fez seis anúncios através da agência. Por causa do seu aspecto, tem pelo menos um trabalho garantido: "Faço um Pai Natal todos os anos", diz à SÁBADO.

Alguns anos depois, Vítor Leitão chega à capa da Vogue. A sua história é destaque no El País, no El Mundo e no La Vanguardia. Aos jornais espanhóis, Vítor conta como perdeu o emprego há dez anos com a queda da Universidade Moderna - onde dirigia o departamento de informática - e como  tentou a sorte em vários países. Depois regressou a Portugal para viver da ajuda de instituições de solidariedade social, de esmolas e de moedas perdidas nas máquinas de bilhetes do metro de Lisboa. Dormiu nas ruas, em estações e no aeroporto. Até que foi descoberto pela Sonder, através da qual já fez quatro campanhas publicitárias.

Uma delas é esta. É o barman no início do vídeo.


Foi a sua primeira vez na televisão. seguiu-se uma campanha dos supermercados Lidl e da sociedade Ponto Verde. Vítor diz ao La Vanguardia que por cada anúncio ganhou entre €500 e €800 euros, "o que não dá para viver, evidentemente." Ao El Pais diz que continua a responder a anúncios na sua área - engenharia informática - e que conseguiu arrendar um espaço para viver por €210. Tem um emprego das cinco da manhã às duas da tarde numa empresa de pescado. "Dão-me €50 por semana e às vezes um peixe para jantar." De ajuda do Estado recebe €186, acrescenta ao El Mundo.

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