Sarajevo – Uma viagem que começou há mais de 20 anos

Filipe Lamelas 12 de janeiro de 2020

O que comer, visitar e onde ficar na cidade que tem o epíteto de Jerusalém da Europa

Esta viagem começou na fronteira entre a Sérvia e a Bósnia, umas horas antes da chegada a Sarajevo. Não, esta viagem começou em 1990 e qualquer coisa, quando o meu pai regressou de uma missão nos Balcãs e contou-me dos franco-atiradores – de ambos os lados, sérvios e bósnios –, do cerco a Sarajevo, da destruição da ponte de Mostar, do ódio exacerbado entre pessoas que, meses antes, eram vizinhos, amigos ou até familiares e que, de forma absurda de um dia para o outro, passaram a matar-se mutuamente. Esta viagem, para mim, começou aí.

Durante anos, alimentei uma jornada de fantasia sustentada nos filmes de Kusturica, no documentário A última equipa Jugoslava, na surpresa que me causou a indignação, seguida de uma repreensão, do meu barbeiro sérvio, quando usei a expressão "sérvio-bósnio" (porque supostamente devia saber que "isso não existe") e na memória de Bosko Brkic e Admira Ismic, ele sérvio, cristão ortodoxo e ela Bósnia, muçulmana.

Bosko e Admira ficariam para a história como o Romeu e Julieta de Sarajevo quando, em Maio de 1993, após uma breve trégua decretada pelo exército sérvio, decidiram atravessar juntos a ponte Vrbanja (de forma a passarem do lado bósnio da cidade para o lado sérvio): Bosko foi atingido na cabeça, por um franco-atirador, e teve morte imediata; Admira, também ferida mortalmente, arrastou-se até ao corpo de Bosko e ali ficou, a abraçá-lo, até morrer. Os corpos permaneceram na ponte durante dias e nenhuma das partes assumiu a responsabilidade pela morte do Romeu e da Julieta de Sarajevo. Pouco importava: Bosko e Admira tornaram-se num símbolo trágico de uma realidade absurdamente cruel.

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