Os 17 profissionais e instituições que fizeram o país seguir em frente

Geriram a pandemia, apoiaram os necessitados, trabalharam em supermercados e hospitais – e fizeram-nos rir. Estas pessoas ajudaram-nos a ultrapassar o ano mais desafiante de sempre.

Passam 14 meses desde que foi declarado o início da pandemia. Não acabou, mas já se vive algum ambiente de rescaldo. "Há a sensação de que algo está diferente, a população hospitalar está toda vacinada, os números são favoráveis, o número de internamentos é mais baixo", diz Nélson Pereira, diretor da Unidade Autónoma de Gestão de Urgência e Medicina Intensiva do Hospital de São João. A instituição, que recebeu o primeiro embate da Covid-19 em Portugal, acabaria por servir de exemplo às outras.

Não foi a única a ter um papel importante neste último ano: houve uma professora que deu aulas dois meses a partir do carro, agentes da polícia que só folgaram um dia por semana, movimentos de cidadãos que se organizaram para ajudarem os mais carenciados em confinamento – e até lhes cantaram serenatas. Assim como um militar que assumiu a logística da vacinação ou uma farmacêutica que desenvolveu uma vacina em tempo recorde. No 17º aniversário da SÁBADO elegemos as 17 pessoas/instituições que mais nos ajudaram nesta pandemia. Porque nada disto era sequer imaginável – "só nos filmes de ficção científica", diz Nélson Pereira.

Henrique Gouveia e Melo
Coordenador do Plano de Vacinação contra a Covid-19

"Numa guerra, o inimigo é inteligente, mas este é oportunista e, se nós lhe dermos uma trégua, se não estivermos permanentemente alerta, ele acaba por ganhar espaço. Para não ganhar espaço, tem de haver uma conjugação de esforços muito grande, mas até isso muitas vezes nos escapa ao controlo. Temos de ter a certeza de que vamos vencer esta guerra, porque não podemos perdê-la. Em 13 anos de guerra em África, em três teatros de operações diferentes, perdemos 8 mil homens. Nós, num ano de combate contra este vírus, já perdemos 17 mil pessoas. A nossa economia foi fortemente afetada, o nosso modo de vida também. Só no último dia, depois de todos os grupos vacinados e de libertar a economia, posso encarar a minha missão como cumprida. Mas contribuir para que Portugal se liberte deste vírus traz-me, antes de tudo, uma satisfação pessoal porque, sendo militar e tendo prometido combater pelo meu país, esta é uma oportunidade de cumprir e sinto-me realizado por poder fazer isso. Por outro lado, quem me conhece sabe que eu adoro desafios e deram-me um à medida da minha altura." 

Nélson Pereira
Diretor da Unidade Autónoma de Gestão de Urgência e Medicina Intensiva do Hospital de São João

"Há um dia que recordo com grande intensidade: 26 de março. O dia em que, em 24 horas, 350 casos suspeitos nos entraram pela porta dentro. Trabalhámos até de madrugada para escoar as filas, tivemos de ligar a mais colegas para virem trabalhar e, os que já estavam, não se foram embora no fim do turno. Ninguém arredou pé e esse espírito de entreajuda marca. Só de manhã, cada um foi para casa. Eu regressei passadas duas horas. Nas primeiras semanas, a média de sono não ultrapassava muito isso. O São João foi o hospital que recebeu o primeiro embate e, de alguma forma, serviu de farol quer para as outras instituições, quer para o próprio sistema de saúde. Foi uma vivência muito intensa e é óbvio que hoje somos pessoas diferentes. Até do ponto de vista da instituição, houve uma sensação de comunhão muito grande, sentimo-nos mais próximos uns dos outros. Temos um hashtag, #SomosSãoJoão, e ouve-se amiúde, porque de facto vestimos essa camisola – está à flor da pele. A nossa função é salvar vidas e, com ou sem pandemia, salvamos vidas todos os dias. Servir de exemplo ao País, isso sim enche de orgulho as pessoas que aqui trabalham."

Inês Sales
Produtora de televisão, membro da direção da União Audiovisual

"A União Audiovisual seria para durar um ou dois meses… já passou um ano e ainda aqui estamos. Somos uma associação que apoia, com bens alimentares e de primeira necessidade, todos os profissionais do setor cultural: maquilhadores, técnicos de iluminação, encenadores, artistas de circo, produtores, atores, operadores de áudio, etc. Temos oito polos de norte a sul do País, incluindo nos Açores. Preparamos mensalmente uma média de 350 cabazes ao nível nacional, para cerca de mil pessoas. As famílias que ajudamos não são apenas números. Queremos saber quantas crianças e que idades têm, se são vegetarianos, se têm cães ou gatos, etc. É preciso coragem para se pedir ajuda. O aceitarmos que sozinhos não conseguiremos manter-nos de pé, é um ato consciente e de grande responsabilidade. É nossa missão não permitir que os profissionais do setor cultural tenham de abandonar a área, por não aguentarem mais – e não divulgamos quem nos pede apoio. Pela minha parte, nunca seria capaz de saber que deixava alguém para trás, sem lhe dar a mão. Caminhar lado a lado... Só assim faz sentido."

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