Madonna, entertainer e política, com a família no Coliseu

Madonna, entertainer e política, com a família no Coliseu
Rita Bertrand 15 de janeiro de 2020

Exigiu intimidade, proibindo os telemóveis, e comandou duas horas de pop dançável, entre histórias de Lisboa e discursos anti-Trump. Os filhos dançaram com ela

"Estava ansiosa por voltar a Lisboa, a minha segunda casa, onde comecei este disco, inspirada pela música do fado. Finalmente estou num lugar onde não tenho de explicar o que isso é." A ovação é grande, a maior de todas desde que o concerto arrancou uma hora antes, em tom político, com as palavras de James Baldwin sobre a importância dos artistas no agitar de águas do mundo, no inconformismo e distúrbio das pazes podres, ilustradas por sons de balas, uma atriz a escrever à máquina e um ator-bailarino em movimentos mecânicos.

O tom político há-de voltar várias vezes, chegando a congratular os portugueses por não terem um psicopata como Trump (de "pénis pequeno", insinua) no governo, mas sem renegar o patriotismo: há bandeiras americanas nos ecrãs quando diz "Deus abençoe a América". Contudo, ela sabe bem que não está num comício: cada palavra é proferida com a confiança de uma grande entertainer, incluindo anedotas e até o leilão "só com dinheiro vivo, nada de créditos" de uma Polaroid sua tirada no momento – noutro concerto, conseguiu "5 mil euros de um brasileiro", revela; neste, ficou-se pelos 1.000 de um espanhol em férias, que os levava no bolso "para comer".   

É com a história da vida de Madonna em Lisboa, que ela conta ao pormenor depois de dizer que "provavelmente não vale a pena porque já todos a conhecem" – ou, pelo menos, contou na segunda das oito noites de concerto, a 14 de janeiro, no Coliseu dos Recreios –, que chega ao auge da viagem: o cenário, essencialmente pop e recheado de símbolos norte-americanos desde o início, converte-se num qualquer recanto de Alfama, forrado a azulejos, a envolver os músicos de instrumentos acústicos (das percussões ao trompete e acórdeão), incluindo a guitarra portuguesa dedilhada por Gaspar Varela, o muito jovem neto de Celeste Rodrigues, a irmã (falecida em agosto último) de Amália, com quem a rainha da pop cantou numa jam session – depois dos dias solitários, fechada em casa, que passou quando chegou à cidade (para acompanhar o filho David Banda, nos Iniciados do Benfica) em meados de 2017 e antes de a sua única amiga em Lisboa, a colombiana Victoria, lhe começar a dizer: "Não podes continuar assim, tens de sair."

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