João Cutileiro (1937-2021), o escultor do erotismo

Rita Bertrand 05 de janeiro

Há muito que o pó do mármore se tinha infiltrado nos seus pulmões. Acabou por matá-lo esta terça feira, 5 de janeiro, aos 83 anos. Deixa uma vasta obra, onde o corpo feminino é protagonista.

O seu monumento ao 25 de abril, no alto do Parque Eduardo VII, feito a pedido da câmara de Lisboa em 1997, foi alvo de ataques, pela sua estrutura fálica. Não se importou. Era a sua visão – e "um artista deve ser livre, isso é justamente uma das conquistas da Revolução", dizia João Cutileiro, homem de esquerda que chegou a ser militante do PCP nos tempos da ditadura: "Nessa altura, era necessário. Depois deixou de haver razão."

A restante obra era igualmente polémica. Chocava os puritanos, que pouco viam além de mulheres nuas esculpidas na pedra. E então? Ao Correio da Manhã, disse em 2012, que sim, havia "brejeirice" no seu trabalho – mas não só. De pronto, recordou Homenagem a Mapplethorpe, uma exposição que fez em tributo ao fotógrafo norte-americano, que fez "coisas ditas pornográficas", provocando escândalo nos Estados Unidos, mas também composições com jarras floridas: "Aquando dessa minha homenagem, as pessoas pensavam que iam lamber os beiços porque esperavam caralhadas à Bocage, mas encontraram flores! O Jorge Amado dizia que as flores eram os órgãos sexuais das plantas."

Confrontou-se com muitos pudores – até das suas modelos, geralmente com idades entre os 30 e os 50, embora tenha esculpido e desenhado mulheres de todas as idades, dos 13 aos 80. Algumas pareciam mesmo muito jovens. Também o acusaram de pedofilia. Encolheu os ombros: o problema estava no olhar de quem via, não no seu, assegurava. 

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