Há um homem apaixonado por um casaco a matar gente nos videoclubes

Rita Bertrand 20 de maio de 2020

100% Camurça seria uma comédia, não tivesse um protagonista trágico, em delírio amoroso com um blusão “de arrasar”. Estreou a 14 de maio no Filmin e outras plataformas VOD e nos videoclubes da televisão.

A cena inicial de 100% Camurça, filme de abertura no último Festival de Cannes, é repetida a meio desta pequena e inqualificável obra francesa, que começa enigmática, passa por filosófico, roça o nonsense e resvala no gore: uma fila de jovens atira uma série de impermeáveis para dentro do porta-bagagens de um carro, dizendo: "Prometo não voltar a usar um casaco na vida."

Só da segunda vez se perceberá o contexto. Entretanto, vemos Georges (Jean Dujardin, vencedor do Óscar de Melhor Ator por O Artista, de 2012), sozinho em viagem com destino a uma casa remota onde compra, em segunda mão – a preço milionário, previamente combinado, mas tão inflacionado que o próprio vendedor se sente impelido a acrescentar-lhe o brinde de uma câmara de filmar há anos sem préstimo –, o casaco dos seus sonhos, com franjas e 100% em pele de camurça.

Sabe-se depois que Georges, que em pouco tempo se revela um aldrabão destituído de empatia, acometido de uma vaidade egomaníaca, acabou de se separar da mulher e tem a conta bancária congelada.

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