Crítica em quarentena: Spenser Confidencial, o péssimo blockbuster da Netflix

Tiago Santos 25 de março de 2020

O crítico da SÁBADO faz aqui uma "longa autópsia a um mau filme americano", disponível em streaming

Não foi há muito tempo que Mark Wahlberg admitiu, numa entrevista, que um dos seus maiores arrependimentos como actor foi ter sido o protagonista de Boogie Nights, o maravilhoso porno-épico de Paul Thomas Anderson. O receio de Wahlberg é que Deus e Família não se sintam confortáveis em ambientes tão sórdidos. Mas se o Todo Poderoso (qualquer um deles) existir e for justo, serão títulos como Spenser Confidencial, agora disponível para streaming na Netflix, que irá condenar o actor de Boston - nomeado para o Óscar de Melhor Actor Secundário por The Departed – Entre Inimigos (2006) – a um dos círculos do inferno. Talvez fique logo ali no terceiro, junto dos gulosos. Não que Wahlberg pareça ter grande apetite por coisa alguma: a sua interpretação nesta quinta colaboração consecutiva com Peter Berg (as coisas vão ficando pior a cada título) é, nos seus melhores momentos, sonâmbula. Procurando muito bem, encontra-se resquícios de uma motivação: a vaidade.

Spenser, um ex-polícia injustamente ex-condenado que não é capaz de ver uma injustiça sem a querer corrigir, tem algumas das características que também atraíram Tom Cruise a uma personagem como Jack Reacher. São uma visão romanceada, saudosista e até reacionária da América que já foi de Reagan; heróis despegados e solitários que não precisam de aplausos; homens aparentemente comuns mas capazes de dar cabo de cinco brutamontes durante uma luta numa estação de serviço. Reacher só tinha uma camisa, Spenser quer ser camionista no Arizona (yep, a sério) e nem sequer sabe o que é a "nuvem" – meia hora mais tarde, já anda a receber chamadas de FaceTime, mas cedo se percebe que a coerência dramática olhou para Spenser Confidencial e pensou "não, isto não é mesmo para mim".
Um momento de silêncio em solidariedade com Brian Helgeland, um dos argumentistas que adapta o romance de Ace Atkins usando as personagens criadas por Robert B. Parker.

Helgeland, que escreveu L.A. Confidential (1997) e Mystic River (2003), também não consegue arranjar – por muito que tente – justificação para tanto Wahlberg. Exemplo: pela meia hora de filme, Wahlberg decide fazer uma sequência inteira de tronco nu. Não há razão nenhuma para isso além do facto de Wahlberg ter o físico característico de quem acorda às cinco da manhã para fazer duas horas de pesos.

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