Crítica de cinema: Malmkrog

Crítica de cinema: Malmkrog
Pedro Marta Santos 22 de dezembro de 2020

Um longo filme "soporífero", fechado na sua altivez, de um grande cineasta romeno

Na passagem do século XIX para o XX, um período tão crepuscular como o que agora vivemos, cinco personagens reúnem-se numa mansão na Transilvânia onde a neve bate nas janelas e nos portais – o plano exterior inicial é digno de Tarkovsky. O aristocrata que as recebe levita pelas salas numa solenidade faustiana. Discutem – ou melhor, expõem à vez – os seus argumentos sobre a guerra, a religião, a memória, a paz, a tirania, a metafísica, o anticristo e a linguagem, sempre a linguagem (as palavras saem-lhes da boca como balas de fuzis que já não funcionam). As suas perplexidades são as de um mundo onde as elites nobres correm risco de extinção.

De quando em vez, para não dormirmos na forma, alguém desmaia, ou um criado manifesta o seu surdo ressentimento. Sob luz natural ou de velas, é tudo ponderoso, é tudo sentenciador. Baseia-se num – também babilónico – texto, publicado em 1900, de um filósofo místico russo e teólogo cheio de dúvidas, Vladimir Soloviov, amigo de Dostoievski mas hoje perdido na grande noite das ideias.

Malmkrog é surpreendente na filmografia de um cineasta cujos grandes filmes (A Morte do Senhor Lazarescu, Sieranevada) se ancoram na marca registada do 'novo cinema romeno': realismo rigoroso mas tragicómico, câmara à mão ou fluída, o detalhe e a sordidez das interrogações morais do século XXI.

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