800 páginas de versos amorosos de David Mourão-Ferreira

Rita Bertrand 15 de janeiro de 2020

Volume de peso, Obra Poética (1948-1995) condensa uma vida devota às palavras: a de David Mourão-Ferreira, que escreveu como ninguém sobre o amor - e por isso, foi “adotado” pelo fado.

Conhecer Amália - por intermédio do cunhado, Rui Valentim de Carvalho, ligado à música - marcou a vida de David Mourão-Ferreira, autor das letras de alguns dos maiores êxitos da fadista - como Primavera, Maria Lisboa e Barco Negro. A partir do seu encontro, era ele ainda estudante na Faculdade de Letras, encontraram-se dois lados até aí antagónicos da cultura portuguesa: a literatura, feudo de intelectuais, e a canção de Lisboa, tida por popular. Foi graças à sua relação ímpar que a poesia entrou a fundo no fado, até então apoiado em palavras menos metafóricas.

Hoje já não espanta ninguém ouvir Pessoa e Camões nas vozes acompanhadas à guitarra e à viola - e Camané, por exemplo, tem entre os seus maiores êxitos um poema de Mourão-Ferreira, Escada sem Corrimão, resumo perfeito do que é a vida -, mas há 60 anos não era assim, como bem lembrou, em entrevista ao Público, em 2011, David Ferreira, o filho do escritor (e ex-diretor da discográfica EMI - Valentim de Carvalho), que colaborou com Luís Miguel Gaspar na edição de Obra Poética (1948-1995) que a Assírio & Alvim lançou em dezembro: "Foi uma relação mal vista pelas famílias de cada um. Uma fadista muito célebre ironizava, cáustica, por volta de 1965: ‘Agora a Amália canta letras à Picasso’!"

David Mourão-Ferreira, que publicou 14 livros de poesia (revistos e reorganizados no recém-publicado imponente volume de 800 páginas), foi no entanto muito mais que letrista de fado e poeta do amor (às mulheres, profundamente sensual), seu tema dileto, a par da memória, espelho da sua sensibilidade (com um lado frágil, raro na época em homens como ele, para quem a virilidade era essencial) e da obsessão da morte, a pairar sempre, fantasmagórica, sobre as alegrias da vida.

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