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"Sou uma ambientalista imperfeita"

Sónia Bento 28 de agosto de 2021

Joana Guerra Tadeu não toma banho todos os dias e deixou de comprar carne, peixe e roupa há anos. Mas conduz um carro a gasóleo, baba-se por picanha e não larga o telemóvel.

O despertador do telemóvel tocou às 7 horas. Sim, o telemóvel é a primeira coisa em que pego e a última que largo. Ou não fosse uma ambientalista imperfeita! Se tiver de escrever uma crónica, acordo por volta das 5h30 porque gosto de o fazer antes de comer e de tomar banho, se for caso disso. Não tomo banho todos os dias por uma razão simples: trabalho em casa.

Isso permite-nos poupar muita água. Só tomo banho, tanto eu como a minha filha [Aurora, de 4 anos], se cheirarmos mal. ‘Snifo’ a minha filha e sei quando precisa de banho e de lavar o cabelo. O Martim, meu marido, toma mais vezes porque está mais tempo "em campo". Ele é duplo de cinema e fotógrafo, filma documentários e é instrutor de escalada. Não somos porcos, somos só ambientalistas (risos).

Como não uso papel higiénico, que substituo pelo chuveirinho, as partes íntimas estão sempre limpas. Mas temos papel em casa para a Aurora e para as visitas. Em alguns cocós, convém passar papel primeiro, senão sujamos a toalha, que depois tem de ser lavada. Quando instalei o chuveiro, publiquei uma foto no Instagram e foi dos posts que teve mais engagement. Os dentes, lavamos com pastilhas dentárias e escovas de bambu.

Na minha casa de banho não há caixote do lixo porque me desmaquilho com toalhitas reutilizáveis e quando estou com o período uso o copo ou cuecas menstruais, que têm um tecido superabsorvente, como as fraldas reutilizáveis, e dão para um dia inteiro. Usamos champô sólido e sabonete artesanal de azeite, que dura mais porque não tem água na composição. Também compro amaciador normal para o cabelo e reciclo as embalagens. Agora, tive um problema de pele provocado pelo uso da máscara e o dermatologista receitou-me produtos de farmácia – é aqui que entram as imperfeições, não acho que seja hipocrisia. Devemos ter a liberdade de usar o que nos faz bem.

Duas máquinas e meia de roupa por mês
Depois fiz café sem desperdício, numa cafeteira italiana, que vai ao lume e não tem filtros descartáveis. É só por água e café. Entretanto, vi as newsletters e fiz scroll nas notícias porque sem saber o que se passa é impossível ser ativista. Uma das minhas maiores fontes é o The Guardian, que tem uma editoria só para ambiente e clima, que é um sonho. Daí, vou parar a outras fontes, o que é muito importante porque há muitas notícias que circulam sobre ambiente e que estão mal fundamentadas. Muito do meu trabalho passa por esta investigação.

Tomei o café e comi melancia. Sei que não é saudável, mas fiquei bem. A seguir fui às redes sociais, no telemóvel, porque outra parte do meu trabalho é dar engagement (likes e partilhas) a outros ativistas e a organizações climáticas. A Aurora acordou sozinha, preparei-lhe umas papas de aveia e pu-la a comer em frente à televisão a ver o Patrulha Pata. Depois, vestiu-se de princesa, pintou os olhos e pôs batom e andou aqui a brincar.

Tomei banho e vesti-me. Não compro roupa nova há uns seis anos. Vou a mercados de trocas e compro em segunda mão, mas não mais do que uma vez por ano. De vez em quando, há marcas que me mandam algumas coisas. Agora, recebi o primeiro biquíni com recolha menstrual e estou superentusiasmada para o estrear.

Vamos para a Serra da Estrela e quero mergulhar no Zêzere. Repito muito a roupa, que é uma mensagem. Por exemplo, nos 11 programas de rádio que já fiz usei sempre a mesma camisola porque apareço no Facebook. Só houve uma vez em que não a levei porque a minha filha a escondeu. Faço uma média de duas máquinas e meia de roupa por mês porque lavo apenas a que está realmente suja, à exceção da roupa interior, claro.

Arejo a roupa, arrumo-a e se tiver uma nódoa, tiro-a com sabão. Não troco os lençóis nem as toalhas todas as semanas. Só se cheirarem a mofo, o que é raro porque desde que sequem bem não cheiram mal.

Carro a gasóleo e minhocas

Gostava de dizer que pratico exercício físico porque é mais inspiracional, mas não é uma prioridade. Quando vou levar a Aurora à escola, de bicicleta, faço exercício. Se for para a rádio a seguir, como hoje, vou de carro, que é a gasóleo. Mas é pior comprar um carro novo elétrico porque a energia e os recursos gastos a construir um carro provocam mais emissões de carbono do que eu a conduzir o meu carro de 2015.

Às 10h30, comecei o meu programa Ambientalista Imperfeita, que é todas as terças-feiras, em direto, na Antena 3. Voltei para casa por volta das 13 horas, dispensei o elevador e subi até ao quarto andar. Almocei uma massa com legumes salteados, que tinha no frigorífico. Perguntam-me muitas vezes porque não sou vegan. Nós não somos vegan. Reduzimos o consumo de carne e de produtos de origem animal o máximo que achámos confortável. Não compramos carne e peixe há anos, mas se for a casa do meu pai e ele estiver a fazer picanha, como aconteceu há dias, como e babo-me.

Se for passar uns dias à praia, não digo que não a um peixe grelhado. Ao menos, estou a consumir produtos locais e sazonais. É melhor do que comer sardinhas em dezembro porque os congelados são das coisas com mais pegada de carbono. Só por serem transportados frios gastam muito mais energia.

Agora, começámos a fazer compostagem novamente cá em casa. Ainda não sou perita, mas é o quê? Os restos de comida, que não seja cozinhada, em vez de irem para o lixo indiferenciado vão para uma caixa com serradura. A comida vai-se decompondo com o calor e é transformada em composto orgânico, que irá ser usado na agricultura. Já tivemos com minhocas californianas e o processo é mais rápido e não cheira mal. Elas comem os restos da comida e transformam-nos em terra. É incrível! Para apartamentos é o melhor. Tive uma fase em que congelava lixo orgânico e levava para a quinta do meu pai, para dar às cabras.

A tarde foi passada a trabalhar no computador até ir buscar a Aurora, por volta das 18h00, e de bicicleta. Já caímos e ela achou muito divertido porque não se magoou. Chegámos a casa, pegámos nas cadelas – a Chia e a Goji, esta última adotada há menos de dois meses – e fomos passear com elas para Monsanto. Aí já fomos de carro. Ficámos lá até nos apetecer porque o jantar não tem horas. Comemos uma massa feta com tofu sedoso - é rápido e muito bom. Pelas 21h00, fiz publicações no Instagram e a seguir deitei a Aurora, não sem antes cantarmos uma canção. Depois de um zapping na televisão, quando me deitei devia ser uma hora da manhã.

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O despertador do telemóvel tocou às 7 horas. Sim, o telemóvel é a primeira coisa em que pego e a última que largo. Ou não fosse uma ambientalista imperfeita! Se tiver de escrever uma crónica, acordo por volta das 5h30 porque gosto de o fazer antes de comer e de tomar banho, se for caso disso. Não tomo banho todos os dias por uma razão simples: trabalho em casa.

Isso permite-nos poupar muita água. Só tomo banho, tanto eu como a minha filha [Aurora, de 4 anos], se cheirarmos mal. ‘Snifo’ a minha filha e sei quando precisa de banho e de lavar o cabelo. O Martim, meu marido, toma mais vezes porque está mais tempo "em campo". Ele é duplo de cinema e fotógrafo, filma documentários e é instrutor de escalada. Não somos porcos, somos só ambientalistas (risos).

Como não uso papel higiénico, que substituo pelo chuveirinho, as partes íntimas estão sempre limpas. Mas temos papel em casa para a Aurora e para as visitas. Em alguns cocós, convém passar papel primeiro, senão sujamos a toalha, que depois tem de ser lavada. Quando instalei o chuveiro, publiquei uma foto no Instagram e foi dos posts que teve mais engagement. Os dentes, lavamos com pastilhas dentárias e escovas de bambu.

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