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Hoje lembramos as mulheres que ajudaram a mudar o mundo

08.03.2018 20:36 por Diogo Barreto
No Dia Internacional da Mulher recordamos algumas das mulheres que marcaram Portugal (e o mundo) e que morreram nos últimos anos mas que deixaram o seu legado.
Foto: Sábado

Viveram num mundo em que a lotaria genética era ser homem. Mas apesar das adversidades que encontraram pelo caminho, isso não impediu estas mulheres de marcarem a história. Lutaram pelos seus direitos, pela igualdade, por singrarem na carreira e ficaram para a história. Quando se celebra o Dia Internacional da Mulher, relembramos algumas das mulheres que marcaram a sociedade e que partiram nos últimos anos, deixando para trás um legado inegável e digno de admiração.

Seria impossível lembrar todas as mulheres que podiam figurar nesta lista, tendo seleccionado nove, sem qualquer critério de escolha que não tudo o que fizeram por um género que ainda luta contra barreiras sociais, como a diferença salarial, o receio pelo bem estar físico ou a "inferioridade" perante alguns dos sectores da sociedade contemporânea.

Terminámos com uma lista de nove mulheres que morreram entre 2015 e 2017 e que, ao longo da sua vida, deixaram uma marca no mundo onde existiram. Poderiam ser nove mil. Nove milhões.  

Maria de Jesus Barroso, a actriz e o suporte da família Soares (1925 - 2015)
Foi a militante nº6 do Partido Socialista. Era actriz, disseur, e a coluna da família Soares. Maria Barroso assumia que quando um homem sobressai as mulheres ficam sempre na sombra. Tinha sido o seu destino. Também costumava dizer que uma mulher não está por trás de um grande homem, está ao lado. Ela esteve ao lado e permitiu que ele tivesse um chão firme para a sua caminhada política até ao topo. Não gostava de ser retaguarda, mas foi toda a vida esse suporte de Mário Soares. Se ele influenciou o curso da História, ela permitiu que tudo acontecesse. 

Quando começou a trabalhar como actriz no Teatro D. Maria II, dava aos pais a totalidade dos 1.800 escudos do seu salário. Ao mesmo tempo, entrou para a Faculdade de Letras, para o curso de Histórico-Filosóficas, onde conheceu um rapaz. Estava a chorar no corredor e ele achou-a bonita. Um colega disse-lhe: "Já viste esta nossa colega que está aqui a chorar por causa de um exame de Higiene Escolar?" Isso não tem importância nenhuma, disse ele. Mas tinha. Ela trabalhava e estudava. Estava nesse momento a fazer a peça Vidas Sem Rumo. Não podia chumbar.

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Nos tempos de faculdade, a partir de um grupo de amigos ligados ao Partido Comunista – onde também andava Mário –, Maria de Jesus começou a interessar -se pelos poetas do Novo Cancioneiro. O regime já não era apenas uma abstracção que fizera "mal" ao pai. A consciência política amadurecera. Participara na manifestação de exaltação aos Aliados pelo fim da II Guerra Mundial, em 1945. Declamava então com energia os poemas dos neo-realistas, cuja mensagem era sempre antifascista. Era a voz da musa dos poetas neo-realistas. 

Morreu Maria de Jesus Barroso

A mulher de Mário Soares morreu hoje às 5h20, no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa

Maria Eugénia Cunhal, a escritora, jornalista e irmã (1927 – 2015)

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Muitos poderão conhecê-la apenas como "a irmã de Álvaro Cunhal", mas  Maria Eugénia Cunhal foi jornalista, escritora e também ela militante do Partido Comunista Português.

Aquando da sua morte, os dirigentes comunistas lembraram uma pessoa com "uma vida dedicada à luta contra o fascismo, pela liberdade, contra a exploração capitalista, pela democracia, pela paz, o socialismo e o comunismo", dirigindo "aos seus filhos, neta e restante família, as suas sentidas condolências".

Professora, tradutora, jornalista e escritora foram as suas ocupações profissionais. Publicou as obras O Silêncio do Vidro (1962), História de Um Condenado à Morte (1983), As Mãos e o Gesto (2000), Relva Verde Para Cláudio (2003) e Escrita de Esferográfica (2008), além da primeira tradução para Português dos contos de Tchekov, Os Tzibukine (1963).

Eugénia Cunhal, mais do que a irmã de... (1927-2015)

Orgulho de ser irmã do líder histórico dos comunistas portugueses? Claro que sim. Mas gostava que a vissem, a ela, e não o que era ou podia ser pela consaguinidade. Eugénia Cunhal tinha a sua própria história, ainda que fortemente marcada pela do irmão 14 anos mais velho.

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Esma Redzepova, a grande voz cigana (1943-2016)

Só percebeu que os outros a viam como inferior quando foi para a escola. "Para vencer a barreira de ser diferente comecei a trabalhar muito, queria ser a melhor para que as outras pessoas passassem a olhar para mim de outra maneira", contou numa entrevista.

Conseguiu mais do que sonhava: enquanto estudante, envolveu-se em todas as actividades escolares e encontrou na música o futuro. Os olhares mudaram, ela também. O orgulho na "sua origem étnica", como dizia, não. Com um largo sorriso resumia-se numa frase: "Para mim cigano significa felicidade". 

Ao morrer, no dia 11 de Dezembro, aos 73 anos, em Skopje, tinha vencido vários obstáculos, derrubado alguns estereotipos e ultrapassado muitas fronteiras, dentro e fora do seu povo. Encheu uma carreira de cinco décadas com números de sucesso – milhares de concertos em 30 países, 580 temas gravados, dois discos de platina e oito de ouro, muitos shows televisivos, e quase uma dezena de filmes e documentários – que fizeram legiões de fãs muito para além dos Balcãs. Indira Gandhi chamou-lhe "a rainha da música cigana" em 1976 e o mundo seguiu-a. Ela chamava-se Esma Redzepova e quis tanto mudar o mundo que esteve nomeada duas vezes para o Nobel da Paz.

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Esma Redzepova, a grande voz cigana (1943-2016)

S ó percebeu que os outros a viam como inferior quando foi para a escola. "Para vencer a barreira de ser diferente comecei a trabalhar muito, queria ser a melhor para que as outras pessoas passassem a olhar para mim de outra maneira", contou numa entrevista.

Janet Reno, uma mulher a comandar a Justiça dos EUA (1938-2016)

A imagem irritou o mundo. O rosto em pânico de um garoto de 6 anos, escondido num armário, a ser preso por um comando de arma apontada não se podia apagar. Janet Reno sabia disso. Mas, uma vez mais, fez o que achava que tinha que fazer, sem cedências, sem se importar com o que os outros pensassem. Fora por isso que, depois de licenciada em Química, decidira ser advogada: "Para os outros não me dizerem o que é que eu devo fazer." Estudou em Harvard: fez parte de um punhado de mulheres entre 500 alunos e brilhou no curso como o faria depois no governo.

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Bill Clinton escolheu-a para a primeira procuradora-geral dos Estados Unidos (o equivalente ao nosso ministro da Justiça, embora com certos poderes diferentes). Era a terceira opção, as duas primeiras escolhas demitiram-se: tinham contratado imigrantes ilegais para amas. Ora, Janet Reno nunca teria esse problema: solteira, não tinha filhos. Teria outros? A sua frontalidade, dureza, coragem e feroz independência do poder político? 

Janet Reno, a primeira mulher a mandar na justiça dos EUA (1938-2016)

Hillary não lhe perdoou a investigação a Lewinsky, mas durou os dois mandatos de Clinton, que não lhe poupou elogios na semana passada. Corajosa, sobreviveu a Waco e ao miúdo cubano sem trocar o seu caiaque pelos cocktails de Washington

Maria Eugénia Varela Gomes, uma lutadora sem limites (1925-2016)

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Embrulhada no seu eterno casaco castanho comprido sentia o peso do medo nas ruas de Beja. Caminhava no meio do silêncio forçado para o hospital onde estava o marido. Soubera em Lisboa, "pela telefonia", que o assalto ao quartel tinha falhado e que João Varela Gomes fora gravemente ferido. Sob apertado controle militar a população não podia falar, mas ela sentiu-lhe a simpatia: "Ofereciam-me apoio, perguntavam baixinho se precisava de alguma coisa, queriam saber como estava o meu marido; um taxista, por exemplo não quis receber dinheiro...", recordou na entrevista à investigadora Manuela Cruzeiro para o projecto de História Oral sobre o 25 de Abril. Nesses dias de Janeiro de 1962, sem saber se João estava vivo ou morto, Maria Eugénia Varela Gomes foi presa pela PIDE e enviada para Caxias. "Fumei durante todo o caminho a pensar no que me esperava". 
 
Chegou à meia noite e esperavam-na dois cobertores, dois lençóis, uma colher e um prato ("estive 8 dias sem me pentear"). Rapidamente percebeu que a tortura do sono, o isolamento e os interrogatórios a podiam deprimir. Procurou defender-se: "Tinha comigo a minha carteira, feita de conchas, e passava o tempo com os olhos fixos nestas, até conseguir uma espécie de auto-alucinação ou de hipnotismo. Imaginava que estava na praia, com os meus filhos e com o meu marido", contou a Rose Nery Nobre de Melo em Mulheres Portuguesas na Resistência (1975). Ou então fixava os belos olhos azuis nos polícias. "O meu olhar devia ser muito penetrante, pois nenhum resistia. Ficavam nervosíssimos, metiam as mãos nos bolsos e acabavam por ir chamar um colega que os substituísse". Na cela, comunicava com as outras presas através da parede e ia sabendo da saúde do marido, que quase morrera várias vezes. 

Tinha escolhido as palavras para as perguntas da PIDE e não saiu delas em 18 meses de prisão: "Não participei nem na preparação nem no assalto ao Quartel de Beja, mas estou de alma e coração com o meu marido e os companheiros". Bastava-lhe ter parado na vírgula e teria sido libertada para ir ter com os quatro filhos, privados também do pai (ficou seis anos na prisão). Não quis. Na sua luta anti-fascista manteve-se sempre assim: determinada, corajosa, honesta, fiel a si própria e aos amigos, coerente com as suas causas. Valores que herdara de uma "família situacionista, reaccionária e conservadora".

Maria Eugénia Varela Gomes, uma lutadora sem limites (1925-2016)

Um dia de neve salvou-a da depressão, muitos dias com os livros ofereceram-lhe mundo. Antígona e Cassandra, presa e torturada, figura marcante da luta anti-fascista e da ajuda aos presos políticos, foi sempre demasiado livre para ser de um partido

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Manuela de Azevedo, a primeira-dama dos jornais (1911 – 2017)

Corria o ano 1945 quando foi chamada para uma entrevista de última hora: ia conversar com Ernest Hemingway. O escritor norte-americano, um dos incontornáveis do século XX, estava de passagem por Lisboa – o seu navio atracava por breves instantes na capital. Até se atrasou o horário de partida para que o prestigiado passageiro trocasse ideias com Manuela de Azevedo – nervosa porque não se tinha preparado para o encontro. 

No ano seguinte disfarçou-se de criada para enganar os guardas da PIDE e entrevistar Humberto II de Itália, exilado em Portugal. E houve ainda aquela vez em que foi à caça ao cachalote – apesar de não saber nadar. Com uma vida longa e repleta de peripécias, morreu aos 105 anos na sexta-feira, dia 10. Foi a primeira mulher a adoptar o jornalismo como profissão, em Portugal. 

Nascida em Lisboa, a 31 de Agosto de 1911, cresceu em Mangualde e estudou em Viseu onde viria a dar aulas de Francês e Português. Nos tempos livres, dedicava-se à poesia. Foi nessa altura, com apenas 22 anos, que enviou o primeiro texto ao jornal República. Matar por piedade tratava da eutanásia; foi censurado mas isso não a parou, muito pelo contrário. O jornal rapidamente lhe pediu que ficasse a tempo inteiro e por isso mudou-se para Lisboa. 

Marcou logo posição: exigiu que acabassem com a secção Tribuna das Mulheres, onde escreveria. Ainda foi chefe de redacção da revista Vida Mundial, antes de chegar ao Diário de Lisboa onde esteve de 1945 a 1956. Passaria pelo Diário Ilustrado antes do último poiso, o Diário de Notícias, onde se dedicou à cultura. 

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Manuela de Azevedo, a primeira nos jornais (1911-2017)

No ano seguinte disfarçou-se de criada para enganar os guardas da PIDE e entrevistar Humberto II de Itália, exilado em Portugal. E houve ainda aquela vez em que foi à caça ao cachalote - apesar de não saber nadar. Com uma vida longa e repleta de peripécias, morreu aos 105 anos na sexta-feira, dia 10.

Emmanuelle Riva, o Amor de Hiroshima (1927 – 2017)

Em 2012 venceu o César de Melhor Actriz. Havia interpretado uma mulher que sofreu um AVC e cujo marido tem de lidar com a sua incapacidade. Muitos anos antes fora a personagem principal de Hiroshima meu Amor, de Alain Resnais.

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Quando nasceu, em 1927 parecia predestinada a ser costureira, mas trocou as agulhas pelo teatro e estreou-se em palco aos 27 anos. Actuou até aos 86 ano, tendo abandonado a boca de cena em 2014.

Morreu Emmanuelle Riva, protagonista de Amor

A actriz francesa lutava há quatro anos contra um cancro

Maria Cabral, a diva desconcertante do Novo Cinema Português (1941 – 2017)

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– O que é que fez até agora? 

– Um filho e pouco mais. 

Tinha 28 anos, acabara de ser protagonista de um sucesso de bilheteira, O Cerco (1970), de António da Cunha Telles, com o qual ganhou os prémios da Secretaria de Estado da Informação e Turismo e da Casa da Imprensa e Plateia para melhor actriz.  A sua resposta inesperada bate certo com o que escreveu o Presidente da República quando foi divulgada a sua morte, no sábado, dia 14 de Janeiro, aos 75 anos, em Paris. A Academia Portuguesa de Cinema deu a notícia no Facebook: "Maria Cabral foi rosto e símbolo do Novo Cinema Português." Marcelo Rebelo de Sousa falou de uma "mulher luminosa e irreverente, inquieta e livre".  

Com a sua luz encantaram-se realizadores como Cunha Telles. Começou por trabalhar com Maria na produção (ela pedira-lhe trabalho uns anos antes) e em dois filmes publicitários."Para além daquilo que esses filmes revelavam, eu vislumbrei uma mulher cheia de interesse, uma personalidade fortíssima", disse à revista Celulóide. 

A sua liberdade isolou-a na natureza nos Pirenéus, num retiro em que "rezava ao Sol e à Lua", diz Botelho. Foi aí que ele a encontrou e de onde a trouxe para Um Adeus Português, o último filme de Maria, que se instalou definitivamente em França.

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 "De uma beleza absoluta, não aceitava ordens, era ela." Sempre desconcertante, como na resposta à Plateia

– Que representa para si a vida, como mulher, mãe e actriz? 

– A vida não representa, eu é que represento.

Maria Cabral, uma actriz luminosa (1941-2017)

Num carro descapotável, conduzida por um jornalista pelas ruas de Lisboa, Maria Cabral vai sendo entrevistada pela RTP: - O que é que fez até agora? - Um filho e pouco mais.

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