Vital Moreira

02 de junho de 2009

O cabeça-de-lista do PS faz quilómetros e mal dorme. São dias loucos, antes de emigrar para Bruxelas: a última aula de Direito Administrativo, o comício com Zapatero, os debates com Rangel. Texto de Vítor Matos e fotografias de Sérgio Azenha
 
José Sócrates transpira. O pavilhão do União de Coimbra parece uma sauna, mas é um comício. O secretário-geral do PS discursa, rouco, contra Manuela Ferreira Leite, do PSD, que acha os comícios coisas do passado. Sobre o mesmo palco, o cenário esconde Vital Moreira, o cabeça-de-lista do PS, sentado ao lado de José Luis Zapatero, presidente do Governo de Espanha. Olham para a imagem de Sócrates num ecrã de plasma. Conversam.
Vital Moreira fala a Zapatero de colegas, professores de Direito espanhóis, que o secretário-geral do PSOE conhece bem. Trocam impressões, mas nem por isso Vital larga o telemóvel, por onde responde a SMS. Têm pouco tempo. A intervenção de Sócrates termina e eles voltam ao palco para a fotografia de um abraço ibérico.
O cabeça-de-lista do PS às europeias era, neste dia, 23 de Maio, uma figura secundária, apesar de estar em Coimbra, sua casa. Atrasado uns segundos, teve de correr entre meia dúzia de seguranças espanhóis para acompanhar a entrada acelerada dos chefes do Governo no recinto.
Foi o primeiro a discursar, às 19h45 – outra forma de ser o último –, porque os directos televisivos dali a um quarto de hora seriam para os secretários-gerais. Aliás, Sócrates e Zapatero tinham almoçado juntos, na Quinta das Lágrimas – mas sem Vital Moreira. O candidato independente pelo PS discursou de papelinho na mão. Atacou a direita e a esquerda. O povo gritava “PS!”. Usou um argumento de risco: “O voto no PS também é um voto de protesto, um cartão amarelo aos nossos adversários!”
Na rua, foi abraçado pelo povo, mas aquele abraço veio de Eva Neves Dias, sua professora primária há 58 anos, a quem depois deu aulas de Direito. Maria Manuel Leitão Marques, secretária de Estado da Modernização Administrativa, deu-lhe o único beijo na boca. É a sua mulher.
 
A cabra toca. “Dling-dling!” A cabra é o sino da torre da Universidade de Coimbra, a dar as 16h. “Comecem a filmar enquanto a cabra toca”, sugere Vital à repórter socialista. Uma equipa do PS grava uma declaração do candidato para um tempo de antena, junto à Via Latina, escadaria do edifício histórico da Faculdade de Direito de Coimbra.
“Vocês fazem as perguntas e eu falo? Não? Então vou começar: ‘É importante decidir bem, por causa da posição de Portugal na Europa’”, blá-blá-blá...
Em menos de cinco minutos está feito. O professor vem de uma despedida. É 19 de Maio, terça-feira. Ao fim de 40 anos, acaba de dar a última aula de Direito Administrativo a um curso de licenciatura. Continuará a colaborar nos centros de investigação e a dar aulas nas pós-graduações. Ainda no anfiteatro, Liliana Rodrigues, 19 anos, dá-lhe um código para assinar. O catedrático autografa e deseja “felicidades” à aluna do segundo ano. A seguir, duas estudantes italianas do programa Erasmus barram-lhe a saída. Perguntam se podem fazer o exame na sua língua-mãe. Vital, que viveu em Veneza, não teria problemas. Mas quem toma as decisões agora é o seu assistente, porque ele seguirá para o seu Erasmus político, na Europa, de onde elas também vieram.


 
O utilizador vitalmoreira09 tem 144 “seguidores”. No banco de trás do Mercedes da campanha, o professor pede o portátil a Ricardo Pires, assessor de imprensa. A estrada sinuosa por onde viajam acompanha o rio Mondego. O candidato escreve nas curvas sem enjoar. Nessa manhã, tinha-se estreado no Twitter, uma rede social da Internet onde se publicam pequenos textos de 140 letras, lidos depois por quem decide “seguir” o autor. O meio é-lhe familiar. Há seis anos, criou um dos primeiros blogues portugueses, o Causa Nossa. São 17h. E escreve assim: “Não é sem emoção que se dá a última aula de um ano lectivo, de onde acabo de sair, na FDUC.” Segunda mensagem: “Estou neste momento a caminho de Oliveira do Hospital.”
O Mercedes pára na bomba de gasolina da aldeia de Galizes. O ex-eurodeputado e fundador do PS, António Campos, natural de Oliveira do Hospital, espera-o.
“Então como vai o grande produtor de maçãs?”_–_diz-lhe, abraçando_aquele dono de pomares e fornecedor de supermercados. Foram colegas na Assembleia Constituinte, em 1975, quando Vital era comunista. Laico até à medula, quase anticlerical, vai visitar uma instituição da Igreja.
No Centro de Reabilitação da Misericórdia de Galizes, modernizado com fundos europeus, há deficientes a fazer lavores, crianças no recreio e idosos em fisioterapia. No ginásio, um homem corre numa passadeira. “Também faço!”, diz-lhe Vital Moreira, que aos 64 anos todos os fins-de-semana continua a transpirar numa corrida pelo Choupal, junto ao Mondego.
No fim da visita, senta-se a um computador. Tecla outra mensagem no Twitter. O assessor de imprensa relê e valida. É filmado, fotografado e observado em silêncio por 14 pessoas. Já tem 163 “seguidores”. António Campos apressa-o: “Ó Vital, anda lá, pá! Acelera!” E leva-o para uma sala com mesa posta. “Agora vamos beber um copito.” Uma mulher tenta abrir uma garrafa de tinto, mas parte a rolha. “Um bairradino sabe fazer estas coisas!”, diz Vital, e revela-se mestre no manejo do saca-rolhas. Pega num copo de vinho e num pastel de bacalhau: “Há coisa mais portuguesa do que isto?”
 

 
António Campos senta-se a jantar em frente a Vital Moreira num hotel de Oliveira do Hospital, com 50 socialistas. O ex-eurodeputado esteve em Bruxelas entre 1994 e 2004, e fala-lhe da vida na Europa. A seguir farão uma sessão de esclarecimento. Campos explica: o Parlamento Europeu é uma máquina “infernal” de produzir informação, com centenas de lóbis a influenciar os deputados. Vital pergunta: “Como é que eles se manifestam? Mandam cartas? Convidam para almoçar? Pedem entrevistas?”
O fundador do PS recorda uma das suas maiores lutas em Bruxelas: a divulgação dos casos de vacas loucas e a responsabilização dos produtores de farinhas. “Desde essa época que não como carne de vaca”, conta Vital Moreira. Entretanto, metem-lhe à frente um prato de vitela com batatinhas. Vital manda o prato para trás. Não se quebra assim um jejum de 15 anos, logo em frente ao homem que lhe inspirou o tabu. Trazem-lhe bacalhau à Brás.
Vital Moreira está cansado. Dormiu três horas. A média de sono tem sido essa, ou pouco mais. O ex-ministro da Saúde, Correia de Campos, aconselha-o a ter cuidado com o ritmo. Põe gotas nos olhos e inclina a cabeça para trás. Está sozinho numa sala do Casino da Figueira da Foz com o assessor. Vai debater com Paulo Rangel. Recebe um telefonema. É o director de campanha, Capoulas Santos. “Que boa notícia!”, diz-lhe. Acaba de saber que, dali a dias, terá a companhia de Zapatero na campanha. A jornalista da RTP, Fátima Campos Ferreira, moderadora do debate, espera-o a uma mesa com Paulo Rangel, cabeça de lista do PSD.
Paulo Rangel ataca. Fala rápido, agressivo, explora as contradições entre Vital Moreira e o PS. O independente defende o Governo como pode. Na discussão do TGV, Vital marca pontos ao mostrar um recorte com declarações de Ferreira Leite como ministra das Finanças a dizer que o TGV é prioritário. Em comum, para além de serem ambos constitucionalistas, têm voz de falsete.

O debate aquece. Vital pergunta se Rangel mantém o mandato de eurodeputado caso, em Outubro, tiver de “salvar o PSD de uma crise” pós-legislativas. Rangel não responde, contra-ataca: “E se for convidado em Outubro para ser ministro, aceita?” Vital não responde. Rangel ganha o debate: 7-4 em salvas de palmas.

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