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Segurança

Guarda prisional: "Fico sozinho com 300 reclusos"

21.02.2018 07:00 por Leonor Riso
A SÁBADO recolheu o testemunho de um guarda prisional que conta como a falta de efectivos e os novos horários agravam a falta de segurança nas cadeias portuguesas.
Foto: D.R.
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Prisões
Os guardas e a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais estão em guerra, devido à imposição de um horário extraordinário que entrou em vigor a 2 de Janeiro, entre as 16 e as 19 horas. A SÁBADO recolheu o testemunho de um guarda prisional que conta como a falta de efectivos e estes turnos agravam a falta de segurança nas cadeias portuguesas. Por receio de medidas disciplinares, o testemunho foi recolhido sob anonimato.

"Passo mais tempo na cadeia que com a minha família. E não estou preso.

Eu sinto-me inseguro assim que saio de casa. Às 16 horas, saem 40 pessoas para que entrem só 20. É imposto na nova escala o que temos que fazer, pedem-nos trabalho extraordinário sem fundamentar o porquê. E nós não estamos em segurança.

Logo de manhã há diligências que temos que fazer, rumo a tribunais ou hospitais. Mas há presos que não são levados para o hospital por falta de guardas, que têm doenças infecciosas, como tuberculose. Mas a prioridade é o tribunal. E nós também acabamos por arriscar a nossa saúde todos os dias.

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A partir das 16 horas, acontecem as visitas, faz-se a alimentação dos reclusos, dá-se a medicação e orienta-se a entrada. Com poucos guardas, o encerramento das alas dura 40 minutos. Aí alguns presos aproveitam para ameaçar outros, fazem-nos entrar nas celas dos agressores. Tenho cartas escritas por presos que comprovam isso mesmo. E tenho colegas que estão uma lástima. Há pessoas que vivem longe, e têm de trabalhar uma semana para conseguir estar quatro dias com a família.

Numa ala, chega a haver 300 reclusos e três guardas prisionais para os vigiar. E imaginemos que um deles tem que sair para o exterior numa diligência qualquer, e que outro tem de ir ao pátio vigiar os reclusos nas horas ao ar livre. Eu fico sozinho para 300 pessoas. À hora da refeição, há três ou quatro guardas. Mais: sei que no Estabelecimento Prisional de Lisboa (EPL) há uma guarda feminina que tem de revistar cerca de 250 mulheres, antes das visitas. Por vezes também há só dois colegas nos parlatórios. Como se vê alguma coisa? No exterior, qualquer coisa pode ser arremessada por cima de um muro, de drogas a telemóveis.

A 2 de Janeiro [entrada em vigor da nova escala], os reclusos aperceberam-se de que havia alterações graves na segurança. Quando não se fizeram as horas extraordinárias no EPL, com a retirada de segurança das alas, instalou-se a confusão [a 10 de Fevereiro, verificaram-se distúrbios devido à redução do tempo de visitas e o Grupo de Intervenção e Segurança Prisional foi chamado, mas não chegou a intervir].

Em Portugal, devia haver entre 6 mil e 6500 guardas prisionais. Mas somos 3900. No EPL, por exemplo, são precisos 380. Mas só lá trabalham 190.

Os guardas prisionais estão deprimidos. Tenho medo pelos meus colegas. Com esta escala, durante o mês inteiro, passo 20 dias na cadeia e dez em casa. Destes dez, cinco são para dormir.

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Pedimos para falar com o director-geral dos Serviços Prisionais, Celso Manata, mas nunca se deslocou para isso. É "eu mando, eu quero" e nós não achamos justo. A sensação que temos é que ele manda mais que a ministra da Justiça [Francisca Van Dunem]. Até 10 de Fevereiro, as pessoas já se tinham recusado a fazer as horas extra mas não houve processos disciplinares. Havia ameaças que agora avançaram. Contaram-me que quando se marcou greve, um dos senhores subdirectores gerais [dos Serviços Prisionais] disse: 'Não sei como os guardas do EPL não estão interessados em ganhar mais horas. Devem estar mesmo bem na vida'."


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