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Marcelo apela ao mecenato social e sugere reflexão sobre quadro legal

05.09.2018 10:19 por Lusa
Marcelo Rebelo de Sousa falava na cerimónia de entrega do Prémio Champalimaud de Visão 2018.
Foto: Sábado
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Marcelo Champalimaud
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, apelou ao mecenato social, embora considerando que não pode substituir-se ao Estado, e sugeriu uma reflexão sobre o quadro legal aplicável a estes donativos.

O chefe de Estado falava na cerimónia de entrega do Prémio Champalimaud de Visão 2018, na Fundação Champalimaud, em Lisboa, instituição que hoje anunciou a criação de um centro de pesquisa e tratamento do cancro do pâncreas com uma doação de 50 milhões de euros de Mauricio Botton Carasso e Charlotte Botton, familiares dos fundadores da multinacional Danone.

"Aquelas e aqueles que, fruto do seu trabalho, constituíram pecúlio suficiente para ultrapassar a mera herança familiar bem poderiam seguir na senda de António Champalimaud, de Mauricio Botton Carasso e Charlotte Botton", defendeu Marcelo Rebelo de Sousa.

Segundo o Presidente da República, "o apelo ao mecenato social é importante e, agora que vão sendo anunciados novos projectos fundacionais, cobrindo diversas áreas, da saúde à educação, da inovação à ciência, a necessidade de proceder à reflexão sobre o quadro normativo aplicável parece justificar-se", para ajustá-lo "à nova realidade".

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"O mecenato social não pode substituir-se ao Estado, é certo. O Estado não pode nem deve ser dispensado de promover a justiça social, com vigor educativo e cultura, dinamismo económico e intervenções comunitárias correctivas das assimetrias. Mas nem por isso devemos deixar de cultivar, de divulgar e de impulsionar o mecenato social, com ou sem fundações, diferentes entidades ou novas orgânicas", considerou.

Perante uma plateia que incluía, entre outros convidados, os antigos presidentes da República António Ramalho Eanes e Aníbal Cavaco Silva, os anteriores primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, e vice-primeiro-ministro, Paulo Portas, e a actual presidente do CDS-PP, Assunção Cristas, o chefe de Estado reiterou o apelo ao mecenato social, estendendo-o ao voluntariado.

"Que quem possua uma biblioteca a partilhe desde logo com quem a não tem. Que quem disponha de meios financeiros, recursos técnicos ou logísticos os disponibilize aos outros, na saúde, na escola, nas misericórdias, nas IPSS. Que quem pode libertar tempo para ser útil aos demais multiplique esse outro mecenato social chamado voluntariado, convertendo os muitos milhares de milhares que já somos em centenas de milhar até chegarmos ao milhão", afirmou.

"Bem hajam a fundação e o Prémio Champalimaud de Visão por nos inspirarem a querer ser mais e melhor em voluntariado e em mecenato", acrescentou Marcelo Rebelo de Sousa.

Investigadores que ganharam prémio Champalimaud curam cegueira hereditária
Sete investigadores norte-americanos e ingleses conseguiram curar um tipo de cegueira hereditária através da primeira terapia genética do mundo, e vão hoje receber o maior prémio do mundo no campo da Visão, atribuído pela Fundação Champalimaud.

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"Estamos a fazer uma coisa muito simples chamada terapia genética", explicaram dois dos investigadores premiados em entrevista à agência Lusa.

Parceiros de laboratório e casados há muitos anos, os norte-americanos Jean Bennett e Albert Maguire referiram que a ideia é "muito simples", mas "são precisos muitos passos para fazer com que funcione".

A terapia consiste basicamente em "substituir um gene danificado por um gene normal", afirmou Albert Maguire, adiantando que a equipa conseguiu "usar um vírus, que não causa nenhuma doença, para levar o gene normal às células nervosas".

Com isto, pessoas que nasceram cegas "passam a conseguir andar de bicicleta, andar sozinhas, sair à rua à noite, coisas que anteriormente não conseguiam fazer", sublinhou.

As doenças hereditárias da retina são uma das principais causas de cegueira em idade activa e a segunda principal causa de cegueira em crianças na Europa, nos Estados Unidos e grande parte da Ásia.

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"O que nós fizemos foi pegar numa cópia do gene e colocar no sítio onde estava o [gene] doente, permitindo que as células funcionassem normalmente", avançou Jean Bennet.

"Isto é importante, não só porque vai ajudar as pessoas com esta doença em particular, mas também [porque] é um passo fundamental para tratar outros tipos de cegueira e outras doenças genéticas", defendeu.

Comprovada a eficácia do tratamento, o tratamento está a ser implementado em seis centros de excelência nos Estados Unidos, segundo os dois investigadores, ambos docentes da Universidade de Medicina da Pensilvânia e médicos do Hospital de Crianças em Filadélfia, nos EUA.

"Acreditamos que [o tratamento] vai estar disponível na Europa em breve e no resto do mundo, assim que os organismos reguladores o aprovarem", concluíram.

Jean Bennett e Albert Maguire fazem parte da equipa que desenvolveu o tratamento, a partir de uma investigação inicial de Michael Redmond. O grupo -- que inclui ainda Robin Ali e James Bainbridge, Samuel Jacobson e William Hauswirth - recebe hoje o Prémio Champalimaud de Visão, que atribui um milhão de euros aos vencedores.

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"Esperamos que [o dinheiro do prémio] sirva para investir em estudos que desenvolvam tratamentos para outros tipos de cegueira e também para treinar uma nova geração de cientistas e médicos", disse Jean Bennett.

O prémio António Champalimaud de Visão foi lançado em 2006 e conta com o apoio do programa 2020 -- O direito à Visão, da Organização Mundial de Saúde.


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