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Mário Soares

Soares alertado para chantagens com gravações nos hotéis de Moscovo

12.01.2017 19:37 por Pedro Jorge Castro
A anfitriã esfomeada, o wc todo aberto e um hotel cheio de “mulheres assombrosas” - as peripécias da visita à União Soviética em 1972
Foto: Sábado

Há 45 anos, enquanto estava exilado em Paris para não ser preso pela polícia política em pleno marcelismo, Mário Soares foi convidado a visitar Moscovo. A iniciativa partiu da União das Associações de Amizade e Laços Culturais com os Países Estrangeiros da União Soviética.

No avião, seguiam mais três portugueses: o seu amigo Augusto Abelaira e os comunistas Alexandre Babo e Óscar Lopes. Soares foi inicialmente colocado num hotel à parte e só no dia seguinte foi transferido para o luxuoso Hotel Moscow, onde estavam os outros três portugueses, que o puseram de sobreaviso face à hipótese de ser filmado e chantageado.

A revelação foi feita pelo próprio Soares a Joaquim Vieira, autor da mais completa biografia do ex-Presidente ("Mário Soares, Uma Vida, Ed. Esfera dos Livros), numa das 16 entrevistas que lhe concedeu:

"À tarde, o director [da União das Associações de Amizade] diz-me que conseguiu que eu fosse para o Hotel Moscow, de grande luxo, perto do Kremlin, onde estavam os outros portugueses. Havia lá uma quantidade de mulheres bonitas, assombrosas. O Babo e o Abelaira avisam-me de que existe um sistema de filmagem e gravação de som para fazerem chantagem. Lá resisti".

"No fim puxou de um tupperware"
No dia anterior, logo à chegada, Mário Soares tinha sido recebido por uma senhora que insistiu que tinham de ir jantar. O opositor do Estado Novo ainda resistiu, "Não vale a pena, já jantei no avião", mas a interlocutora atalhou: "É obrigatório".

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"Ela escolheu a ementa para mim e para ela. Só bebi um copo de zurrapa que parecia vinho mas ela comeu brutalmente, e no fim puxou de um tupperware e guardou o resto da comida (…) Compreendi que tinha diante de mim uma pessoa esfomeada; o que ela queria, realmente, era comer", recordou.

Num passeio nocturno pela capital soviética, o fundador do PS entrou no hall de uma estação de comboios cheio de miseráveis, bêbedos e velhos a arrasar-se pelo chão. Foi à casa de banho e deparou-se com tudo aberto, "faziam tudo à vista de toda a gente". "Fugi, horrorizado".


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