Notícia

Mário Soares

Até sempre, "militante número 1 da nossa democracia"

10.01.2017 16:44 por Cátia Andrea Costa
Milhares de pessoas encheram as ruas de Lisboa para se despedirem do antigo Presidente da República. O adeus a Soares começou com uma cerimónia no Mosteiro dos Jerónimos carregada de emoção
Foto: Lusa

De rosas amarelas nas mãos ou cravos vermelhos, milhares de pessoas encheram as ruas de Lisboa para se despedirem do antigo Presidente da República, Mário Soares, que foi a enterrar esta terça-feira no Cemitério dos Prazeres.

Foi no Largo do Rato, sede do Partido Socialista que ajudou a fundar, que o ex-Chefe de Estado recebeu o maior dos banhos de multidão do dia: "Soares é fixe", "Soares amigo, o povo está contigo" e "PS, PS" foram os gritos da multidão, entre lágrimas e longos aplausos. O cortejo fúnebre de Soares, transportado num armão da GNR, passou por mais três locais da capital ligados à sua carreira política: o Palácio de Belém, a Assembleia da República e a Fundação Mário Soares. 

A despedida ao antigo Presidente da República começou logo pela manhã - a câmara ardente na Sala dos Azulejos do Mosteiro dos Jerónimos abriu às 08h00 para receber os anónimos e figuras públicas que se quiseram despedir de Soares. Às 13h00 começou a sessão solene evocativa de homenagem, marcada por emoção, lágrimas, palmas, música e poesia. 

Depois de se ouvir o hino nacional e a voz de Mário Soares proferindo o início do discurso da cerimónia de assinatura do tratado de adesão à CEE, o filho do antigo Presidente, João Soares, de cravo vermelho na lapela e voz embargada, fez a primeira intervenção, e destacou o "homem livre", "digno" e "corajoso". "Nos dias cinzentos e de chumbo da ditadura, quando o íamos visitar ao parlatório a Aljube ou a Caxias, cheios de raiva contida e de lágrimas, porque a mãe ou a avó nos diziam que não podíamos chorar na presença dos 'pides' era ainda e sempre o pai que nos dava alento, nos consolava e dava ânimo", recordou por sua vez a filha, Isabel. De rosa amarela na mão - as flores favoritas da mãe, Maria Barroso.

"Um humanista singular"

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Intercaladas por intervenções musicais do coro do Teatro Nacional de São Carlos e da Orquestra Sinfónica Portuguesa, foi depois a vez do presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, do primeiro-ministro, António Costa, e do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. 

"Mais do que militante número 1 do PS, foi o militante número 1 da nossa democracia", afirmou Ferro Rodrigues, descrevendo o antigo primeiro-ministro e Presidente da República como alguém que "tinha a visão dos grandes estadistas e a intuição dos grandes políticos" e "pôs sempre Portugal em primeiro lugar". "Mário Soares lutou até ao fim", sublinhou.

Numa intervenção de cerca de dez minutos que gravou na Índia, onde se encontra em vista de Estado, António Costa, disse que Soares "foi, em momentos decisivos, o rosto e a voz da liberdade" de Portugal. "Desse título, que era certamente aquele que mais lhe agradaria, raros homens se podem orgulhar", afirmou"Mário Soares construiu a história e, por isso, a história guardará o seu nome, a sua obra, o seu exemplo. É um exemplo de combate constante por aquilo em que acreditava. É um exemplo de coragem de dizer o que pensava e de fazer o que devia, ainda que fosse o único a dize-lo e a faze-lo, mesmo que ficando por uns tempos, mas apenas por uns tempos, sozinho. É um exemplo de génio político, que alcançava o que parecia impossível de alcançar", rematou.

A última intervenção na sessão solene evocativa coube a Marcelo Rebelo de Sousa. O Presidente louvou a "telúrica resistência", a "indómita vontade" e a "ilimitada coragem e liberdade" de Mário Soares, e lembrou também Maria de Jesus Barroso, "sua companheira de vida, inspiradora".

O Presidente da República recordou Soares como um "singular humanista e construtor de portugalidade" e considerou que, como "um homem que fez história", merecia ser homenageado num lugar como o Mosteiro dos Jerónimos. "Inspirador lugar este em que nos encontramos, gentes de várias raízes e destinos, unidas pelo essencial: evocar e homenagear um homem que fez história, sabendo que a fazia, mesmo quando tantos de nós nos recusávamos a reconhecê-lo", declarou.

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Quanto à "portugalidade" do fundador do PS, o chefe de Estado disse que Portugal foi "princípio e fim de um percurso que, para Mário Soares, era um desígnio". "É certo que diversa da portugalidade de outros, que, sendo igualmente ecuménicos, teriam esperado um Império imorredouro. Antes, portugalidade lida à luz do realismo dos novos contextos e da liberdade dos povos. Foi assim Mário Soares. À sua maneira, no seu tempo e no seu modo, um singular humanista e construtor de portugalidade. Por isso, aqui viemos e aqui estamos hoje. Com uma saudade feita futuro", acrescentou.

O chefe de Estado terminou o seu discurso com uma citação que, disse, "Mário Soares acabou por converter em lema de vida", de Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa: "Para ser grande, sê inteiro: Nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes".

A cerimónia, inteiramente civil, terminou com o hino nacional e palmas dos convidados, antes de a urna sair dos claustros transportada a ombros por seis militares da GNR. Depois, começou o percurso até ao Cemitério dos Prazeres, onde foram prestadas honras militares. A despedida final a Soares foi reservada à família e amigos próximos. 

Mário Soares morreu no sábado, aos 92 anos, no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa. Nascido em 7 de Dezembro de 1924, Soares, advogado, combateu a ditadura do Estado Novo e foi fundador e primeiro líder do PS. Após a revolução de 25 de Abril de 1974, regressou do exílio em França e foi ministro dos Negócios Estrangeiros e primeiro-ministro entre 1976 e 1978 e entre 1983 e 1985, tendo pedido a adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia (CEE), em 1977, e assinado o respectivo tratado, em 1985. Em 1986, ganhou as eleições presidenciais e foi Presidente da República durante dois mandatos, até 1996. A sua vida será recordada numa sessão plenária especial, às 15h00 desta quarta-feira, na Assembleia da República. 


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