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Mário Soares

Joaquim Vieira sobre Soares: "O dinheiro sempre lhe foi parar às mãos"

14.01.2017 15:05 por Vítor Matos
O biógrafo de Mário Soares diz que antes de mais ele vai ser lembrado como o pai da democracia. Conversa sobre o pragmatismo na política, a relação com o dinheiro e as mulheres na vida. O antigo Presidente morreu faz este sábado uma semana

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Mário Soares fazia questão de rever todas as suas entrevistas, mas desistiu à primeira de rever as declarações que deu ao jornalista Joaquim Vieira para a biografia publicada em 2013. Depois ficou furioso com as histórias sobre as suas relações fora do casamento. Só descansou quando percebeu que não havia referências a nomes. O biógrafo diz que Soares era mais um pragmático do que um verdadeiro socialista.

As grandes vidas políticas do século XX português foram as de Afonso Costa, António de Oliveira Salazar, Álvaro Cunhal e Mário Soares. E de todos eles Soares é o vencedor. Concorda?
Sim, não tenho nada contra essa análise. É o mais jovem de todos. E o último tem essa vantagem. Mas a verdade é que o actual regime é que vence, ligado a Mário Soares e vice-versa. Mário Soares triunfou. Desses homens, só Cunhal não teve o seu triunfo momentâneo.

São personagens que tiveram influência na vida de Soares…
É curioso, porque ele quis escrever uma biografa do Salazar. Creio que não escreveu nada, talvez umas notas. Era uma ideia que tinha na cabeça. Soares olhava de forma crítica e negativa para Salazar. Mas Afonso Costa era para ele uma espécie de herói ou até Cunhal. Com o Cunhal, apesar daquelas zangas todas, nunca houve um corte definitivo. Havia bastante admiração.

Mário Soares fica na História. Vai ser lembrado como o resistente? O fundador da democracia? O travão do PCP? Ou pela entrada na CEE?
Acho que será como o pai da democracia. Ele é a figura tutelar do regime que aparece com o 25 de Abril. Mas tem a ver com todos os outros casos: com a resistência anticomunista em 1975, com a entrada na União Europeia. Os dois grandes pilares da política dele eram o anticomunismo e a entrada na comunidade europeia. E era um caderno de encargos bastante complicado. Nessas duas coisas ele conseguiu. O resto é secundário. O anticomunismo representa a democracia plena. Outra coisa importante é a revisão constitucional de 1982. Para pôr os militares de lado.

A grande virtude dele era a capacidade de perceber em cada momento o lado certo da História?
Tem essa intuição e isso é notável porque o coloca muito à frente dos outros. Mas terá a convicção? Fará isso por oportunismo? Ou terá a convicção de que é o caminho certo?

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E qual é a resposta?
Ele tinha algumas convicções, genéricas, vagas. Ele criou a convicção de que o PCP não era o caminho. Chamem-lhe burguês ou comodista, mas sentia-se mal ali. Aquilo contrariava o seu modo de vida. Através da ruptura com o PCP vai à procura de outras ideias. Vai sobretudo para os pensadores franceses, do socialismo democrático. Não se transforma em socialista instantaneamente, até porque a ideia de socialismo só aparece nos anos 60. Mas havia a social-democracia na Europa. O socialismo propriamente dito era uma coisa que estava muito desacreditada e que começa a ser construída com as bases da social-democracia. Não sei se o Soares seria propriamente um socialista.

Não? Então o que era?
Eu perguntei-lhe: o que é o socialismo? Ele não apresentou uma linha, um princípio. Era a democracia. Mas a democracia é um sistema de alternância. Pode ser mais à esquerda ou mais à direita, e as respostas que ele dá são um bocado vagas a esse nível. Era sobretudo um democrata.

Mário Soares diz-lhe na biografia que não foi um ideólogo, mas que olhou sempre para as coisas com pragmatismo. Limitou-se a adaptar-se às circunstâncias?
Tem princípios básicos, mas a partir daí a latitude é enorme. É um táctico, mas não é apenas um táctico. Não é um oportunista, no sentido de fazer tudo para conquistar o poder. Tem princípios essenciais, como a liberdade, a democracia, a Europa. Soares foi um aliado da CIA em 1975 e, no fim dos anos 90, era antiamericano. Era muito distante do PCP, mas a certa altura aproximou-se. Não foi um doutrinário, um ideólogo.

A frase de meter o socialismo na gaveta foi mesmo dita?
Foi pronunciada ao contrário, mas depois é engraçado como as pessoas se apropriam das coisas. Ele disse num debate parlamentar: "Com estas medidas nós não queremos meter o socialismo na gaveta." Mas toda a gente diz que ele disse o contrário.

A atitude dele na vida é a de quem tem excesso de auto-estima?
Não acho que seja. É uma postura hedonista. Era um tipo sem complexos. Se pensava uma coisa, transmitia-a sem meias medidas. Nunca teve a preocupação de criar a imagem de um tipo correcto. Não segue a etiqueta, está sempre à vontade. Está bem na sua pele. Quando visitou a Rainha Isabel, em Inglaterra, levou uma casaca emprestada e o chapéu não lhe cabia na cabeça. A rainha disse-lhe que o homem ia acenando com o chapéu às pessoas, por isso não precisava de o ter na cabeça. Era muito informal. Também assim conquistava as pessoas. Se é auto-estima ou excesso, não sei. Talvez a característica principal seja fazer da política não uma obrigação mas um prazer. Perante as maiores adversidades políticas estava sempre na maior.

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A história de não ter angústias nem depressões é um mito?
Não. Acho que corresponde à realidade, segundo as pessoas que viveram as prisões com ele. Era sempre o mais optimista. Conhecendo o Soares percebe-se porquê…

Era um homem bem resolvido. E as mulheres?
Sim, sempre atrás de mulheres, toda a vida. Um homme a femme, é o que o define. Não perdoava uma. Ele próprio fazia gala disso nas conversas com os homens. Contava-me isso: "Estava com aquela, mas queria escrever… Mas escrever?… Eu queria era estar com ela... Mas não ponha isto no livro. Não é por causa da minha mulher, é por causa da minha filha..."

Com a mulher isso já não era um problema?
A partir de certa altura a relação já era mais de conveniência.

Há cartas de Maria Barroso nos anos 60 muito sofridas…
São muito curiosas. Ele não queria saber. Estava lá fora, a gozar a sua vida. Estava-se um pouco nas tintas. Era um homem à antiga portuguesa. Tinha a mulher e as amantes. Mas a mulher era sagrada, não se ia separar nem fazer nada contra a família. Era um bocado a lógica das profissões liberais da Baixa: arquitectos, advogados e médicos. Conheciam-se todos e as amantes uns dos outros. Era o velho macho ibérico, latino. Fazia gala de contar as suas proezas sexuais. Ele chateou-se muito comigo por ter contado tudo isto. Mas acho que ele tinha um prazer secreto em se saber. Durante os almoços em São Bento, quando estavam só homens, acabava sempre com histórias de mulheres e ele contava as suas aventuras. Classificava as mulheres: as de que tinha gostado, as de que não tinha gostado.

Soares ficou zangado com as histórias da biografia?
Uma hora depois de eu ter comentado com um antigo colaborador dele que o livro falava de mulheres e de Macau, telefonou-me furioso. "Então você anda aí a dizer nos cafés que escreveu sobre as minhas relações… Olhe que vou processá-lo! Não sabe que sou um homem casado?" Não foi possível ter uma conversa calma. Ao fim do dia, depois de ter recebido o livro, telefonou-me e disse: "Fui lá procurar ao índice remissivo e não encontrei nomes nenhuns." A preocupação dele era que aparecessem os nomes. Isso é que era terrível. Quebrava o código de honra do macho latino. O cavalheiro não ia revelar o nome das senhoras. Ainda estava zangado, mas mais calmo.

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A vida de Mário Soares em 41 histórias (1.ª parte)

Em relação ao caso de Macau e da Emaudio está confirmadíssimo que ele conhecia o fax. Porque é que nunca o admitiu?
Ele recusava reconhecer e aceitar que fosse irregular. Sobretudo não queria que o acusassem de algo que tivesse a ver com dinheiro…

Qual era a relação de Mário Soares com o dinheiro?
Ele nunca precisou, nunca se preocupou, o dinheiro sempre lhe foi parar às mãos…

Naquela altura bastava um telefonema para o Helmut Schmidt, em Bona, e o dinheiro aparecia.
Entrou dinheiro de muitas maneiras. Ele ia com o Rui Mateus e o dinheiro vinha em pastas, sacos, contas bancárias esquisitas. Sempre para o partido. Se ele tirava algum, nunca percebi. O Soares, na sua essência, não era um corrupto. Se o dinheiro ajudasse o partido... ele até escreveu uma carta ao Kadafi a pedir dinheiro. Para ele, o dinheiro era uma minudência. Era para o partido ou para os projectos: como para o grupo de comunicação social que ele quis criar, como a Emaudio. Era em grande.

Ele tenta rescrever a História?
Ele tenta escrever de acordo com o que é a sua visão. Ele rescrevia as entrevistas que dava. Pedia sempre para ver antes e corrigir. Eram uma coisa antes de serem revistas e outras diferentes depois. O picante político, as coisas mais saborosas, era tudo completamente apagado. Recordo-me de estar no Expresso e de chegarem os meus colegas entusiasmados com uma entrevista ao Soares. Depois mandaram o texto e ele tirou tudo o que tinha interesse. Em relação a mim, na biografia, desistiu de rever as declarações. Ele às tantas chama "cabrão" ao Eanes, e hesitei se devia tirar a palavra. Deixei ficar porque definia muito bem a relação dele com o Eanes.

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Ele nunca esclareceu muito bem o papel que teve na descolonização e que dividiu as opiniões da esquerda e da direita sobre ele. Assume que na Guiné foi da sua responsabilidade, mas quanto a Angola e Moçambique diz que foi o MFA (Movimento das Forças Armadas) a tomar conta dos processos.
É um bocado verdade. Mas ele também deu cobertura. Não se empenhou. Pensou: "Tem de ser, ok." Não se levantou contra aquele processo como se levantou contra o PCP em 1975. Deixou andar. Contemporizou. Era ministro dos Negócios Estrangeiros. Nos Acordos do Alvor, ele não meteu prego nem estopa.

A vida de Mário Soares em 41 histórias (2.ª parte)

Ele diz que quando lá chegou estava tudo feito…
Ele estava até diminuído, com uma gastrenterite. Deixou o marfim correr. O MFA nomeou o Melo Antunes e sobrepôs-se a ele na descolonização. E mesmo isso ele aceitou. A descolonização sem autodeterminação não correspondia ao que o Soares pensava. A frio, não no meio do PREC, Mário Soares diria que era preciso consultar as populações e isso não foi feito.

Outro aspecto da personalidade dele: era magnânimo com os derrotados - Freitas e Cunhal. Mas manteve os ódios a Cavaco e a Eanes. Porquê?
Ele viu sempre no Eanes alguém que queria dar cabo do PS. Achou que o Eanes não gostava dele e que queria partir o PS ao meio. E sempre viu a história do secretariado como uma ligação a Eanes. Depois, quando apareceu o PRD, disse: "Estão a ver? Eu tinha razão…"

E em relação a Cavaco? Subestimou-o sempre. Aí nunca funcionou a célebre intuição política…
Não percebeu na altura. Acho que o desprezo que tinha por Cavaco tem a ver com aquele comentário: "Mas este é um tipo sem biografia política!" Acho que ele nunca quis assumir que estava enganado. Nunca quis aceitar e considerar o Cavaco. Ficou sempre com aquela atravessada. Nunca acreditou que fosse um bom político. Alterou os esquemas mentais do Soares. Era um arrivista, não fazia parte da aristocracia política. Ele não gostou da maneira como o Cavaco deu cabo do Bloco Central.

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Para ler esta entrevista, ver papéis inéditos e saber, por exemplo, como Soares hesitava entre pedir uma bolsa à Gulbenkian ou começar a dar aulas ou que pessoas iria encarregar de contactar outras em Lisboa para o ajudar, leia a edição especial de 164 páginas da SÁBADO dedicada ao antigo Presidente, nas bancas a 10 de Janeiro.


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