Notícia

Efeméride

As memórias dos amigos dos últimos anos de Mário Soares

07.01.2018 08:00 por Maria Henrique Espada
Na doença, os próximos já eram menos e ele sentia-o. Os que estiveram nesses dias recordam as histórias que mais os marcaram numa vida cheia delas. Para uns era a voz, a presença, para outros uma piscadela de olho, um gesto de amizade a meio da noite ou o amor a Portugal
Foto: Sábado
Foto: Sábado
Foto: Sábado
Foto: Sábado
Foto: Sábado

Mário Soares e amigos
António Campos conheceu-o em 1963 e foi depois um dos seus mais próximos colaboradores na montagem da "máquina" socialista. A amizade manteve-se até ao fim. "Perdi um irmão", diz. E era também assim que Soares o considerava. 

Nos 54 anos em que acompanhou Mário Soares, o momento que mais o marcou foi mesmo o primeiro, aquele em que o conheceu. Tinha 25 anos e foi de Coimbra a Lisboa, em 1963, para uma reunião conspirativa, a pedido do seu amigo Fernando Vale. O encontro seria em casa do marquês de Fronteira e reunia figuras ligadas à oposição ao regime. Campos ia encarregado de uma missão muito específica: "Bem, ia tentar rebentar com a dita reunião." Os participantes, a maior parte velhos republicanos opositores do regime, estavam a tentar criar a Acção Democrata-Social, cujo artigo 8º, ainda em esboço, impedia maçons de participar. Vale, como outros, era maçon e queria acabar com aquilo. Mas, como era amigo de toda a gente na sala, achou que a função caberia melhor a outro. Levou o jovem Campos, que não era maçon (tinha aliás sido chumbado à entrada) e podia desempenhar o papel. Campos, hoje com 79 anos, até se preparou: "Passei no consultório do [Miguel] Torga, de quem era amigo." Mas nem isso ajudou. Fernando Vale tinha combinado um sinal, dava-lhe um toque no pé, e ele pedia a palavra. E pediu. Quando terminou foi para ficar "aí uma hora a levar pancadaria... eu era um miúdo e eles eram uns profissionais daquilo. Estava lá o velho Cunha Leal, o Carlos Ferrão, da Vida Mundial..." Uma dolorosa tareia de oratória. A certa altura, a sorte mudou: "Até que se levantou uma voz, um tipo lá de trás, que faz uma intervenção brutal e estoura com a reunião. Veio em meu socorro." Era Soares. O ambiente mudou, o artigo 8º morreu, o projecto de associação ficou pelo caminho e no ano seguinte Soares fundaria a Associação Socialista. No fim, Campos foi agradecer ao desconhecido tê-lo salvo do aperto. Soares retribuiu o elogio: "Oh pá, você foi um tipo brutalmente corajoso, aguentou esta porcaria aqui durante uma hora, foi embarrilando o que pôde, sem si não tinha conseguido."

Tornaram-se parceiros, primeiro na oposição, depois na fundação e organização do partido, e mantiveram amizade ao ponto de Campos se tornar o arquétipo do "soarista" político. Mas a proximidade era também pessoal. Um dia, já nos anos 80, Soares ligou-lhe a dizer que tinha de ir a Nafarros e levar a mulher. A ida era comum, o pedido de acompanhante nem tanto, pelo que achou que teria lá alguma entidade estrangeira, para uma ocasião mais formal. Mas não. Soares tinha convidado os dois meios-irmãos (Tertuliano Soares e Cândido Nobre Baptista) para almoçar em sua casa. E disse-lhes, recorda António Campos: "É para vos apresentar o verdadeiro irmão – que era eu. E é assim que eu também me sinto: perdi um irmão."

Nos últimos tempos, já depois da encefalite que o atingiu no início de 2013, Soares continuou a ir de vez em quando almoçar com o amigo a Oliveira do Hospital. Adorava a serra, queria sempre ir lá. Campos confessa que torcia a realidade: "Todos os dias falávamos e ele perguntava-me sempre como estava a serra. Eu inventava todos os dias um nevoeiro..." Com boa intenção, assim desincentivava a viagem: "Ele já não podia ir para dois mil metros de altitude."

A SÁBADO falou com alguns dos amigos que acompanharam Mário Soares nos últimos anos. Além de António Campos, também Raúl Capela, Vítor Ramalho, Maria de Sousa e António Valdemar nos contaram as histórias que mais os marcaram no contacto com o ex-Presidente da República. Na edição Nº714 da SÁBADO, nas bancas dia 4. 

pub
Capa n.º 714



pub
pub