Notícia

Portugal

José Sócrates: "A tortura tem um problema que é a eficácia"

24.11.2017 10:40 por Alexandra Pedro
Ex-primeiro-ministro falou sobre a tortura - tema da sua última tese - e sobre a política adoptada pelos EUA. "A facilidade que os drones permitiam de eliminar pessoas à distância, sem baixas do 'nosso lado', contribuiu em muito para a escolha desta política de guerra", disse.
Foto: Cofina Media
Foto: Lusa
Foto: Lusa
Foto: Fernando Veludo/Lusa

sócrates
As obras de José Sócrates foram o foco da entrevista do ex-primeiro-ministro ao jornal i. A tortura - tema da sua última tese -, as políticas adoptadas pelos EUA (utilização de drones) e ainda o poder do Estado foram alguns dos temas abordados pelo antigo governante. Sócrates recusou-se a falar do processo Operação Marquês, onde é acusado de 31 crimes

"Antes de escrever a minha tese mudei de tema uma duas três vezes e lembro-me do momento em que me decidi por este tema. Foi numa aula em que se falou disso, e eu saí dessa aula com vontade de comprar todos os livros sobre o assunto. Um livro que me determinou foi este livrinho [mostra um pequeno livro com o título Par-delà le crime et le châtiment - Essai pour surmonter l'insurmontable]. É de um autor de origem austríaca que saiu do seu país durante o Anschluss [anexação da Áustria pela Alemanha nazi]. (...) Foi preso. Foi torturado. Esteve em Auschwitz. Sobreviveu. Foi viver para França. Mudou de nome para Jean Améry e nunca mais escreveu em alemão", revelou José Sócrates. 

Ainda sobre a tortura, questionado sobre se os fins justificam os meios, o ex-primeiro-ministro diz que se tornou um "deontologista" nesta questão, defendendo a "doutrina kantiana: não é possível utilizar as pessoas como meios para atingir determinados fins". "Não é possível fazê-lo em nenhum circunstância", acrescentou. 

Mais especificamente sobre a sua última obra O Mal que Deploramos - O Drone, o Terror e os Assassinatos-Alvo, Sócrates diz que o livro tem uma "história dupla" e justifica: "primeiro, uma história sobre a guerra ao terror; depois, uma história do que significa o aparecimento dos drones como instrumento facilitador de um determinado tipo de guerra, que é a que é feita através de assassinatos-alvo". 

pub
Na mesma entrevista, o antigo líder do PS abordou ainda a forma de governação dos EUA em relação à tortura. "Quando você vê, hoje, o presidente dos EUA, Donald Trump, a dizer 'sim, sim, falaram-me da tortura, eu até estou inclinado para que a usemos porque dá resultados', é preciso dizer que os EUA assinaram tratados contra a tortura que os vinculam", defende. 

Sócrates diz ainda que em 2011 é declarada a "guerra ao terror", a que se juntou "o desenvolvimento do drone". "De alguma forma, a facilidade que os drones permitiam eliminar pessoas à distância, sem baixas do 'nosso lado', contribuiu em muito para a escolha desta política de guerra", afirmou.

"O primeiro preço que estamos a pagar com estes 17 anos de guerra sem fimao terror é o preço da liberdade, supostamente compensado pela segurança. Mas estamos a dar poderes cada vez mais abusivos aos Estados. Onde há poderes dos Estados fortes há certamente abusos", revelou ainda José Sócrates.  


pub
pub