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Especial Operação Marquês

Dinheiro de Sócrates era levantado na Baixa de Lisboa em envelopes

11.10.2017 19:40 por Marco Alves
O primo encarregava-se dessa missão. Dinheiro passava por Cabo Verde em trânsito para Portugal. Investigação detectou 2 milhões de euros transaccionados na Rua do Ouro
Foto: Sábado
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Depois de alegadamente José Sócrates ser corrompido e após a montagem do circuito financeiro internacional para esconder a origem e a real titularidade do dinheiro, como é que esse mesmo dinheiro chegava às mãos de José Sócrates?

Segundo a acusação, o sistema tinha também a sua complexidade. O político usava como peão o seu primo, José Paulo Pinto de Sousa.

"Com o objectivo de ir disponibilizando parte desse valor ao arguido José Sócrates para pagamento de despesas no seu interesse, designadamente, viagens, férias e outras, sem que a origem e propriedade dos fundos fosse detectável, os arguidos combinaram entre si que tais quantias pecuniárias seriam disponibilizadas em pequenas parcelas ao longo do tempo."

Para tal, recorreram aos préstimos de Francisco Canas, sócio de uma sociedade com sede na Rua do Ouro, em Lisboa, que "entre outros serviços, disponibilizava aos clientes que pretendiam colocar dinheiro no estrangeiro com ocultação da sua origem, destino e proprietário e que não tinham intenção de o manifestar fiscalmente em Portugal ou que tinham proveniência ilícita, um esquema de circulação de fundos, engendrado por si, com ligação a contas sediadas na UBS, na Suíça, no BPN IFI, em Cabo Verde, e no BCP e no então BPN em Portugal."

As transferências da Suíça para Francisco Canas
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Canas recebia na sua conta de Cabo Verde transferências de clientes com origem em contas suíças, que depois transferia para as suas contas portuguesas, onde depois realizava levantamentos em numerário para os entregar aos clientes.

"Como contrapartida, Francisco Canas ficava com 1% da totalidade do valor dos fundos objecto de cada transacção, disponibilizando o remanescente em numerário, que entregava, em mão, aos clientes ou a quem estes indicassem, nas instalações do seu estabelecimento."

Para não se expor, o primo de Sócrates "determinou que os contactos a realizar com o referido Francisco Canas fossem feitos através da pessoa de Aurélio Alves, que era empregado da sociedade A COUTADA, da qual era sócio de forma indirecta."

Francisco Canas

O dinheiro era entregue em mão a Aurélio Alves na Rua do Ouro "sempre que recebia indicações para tal." Depois, entregava o dinheiro "em envelopes fechados" ao primo de Sócrates, "ou a Ana Paula Ferreira da Costa, também funcionária de A COUTADA, pessoa de confiança do arguido, que guardava os referidos envelopes em cofre até os entregar pessoalmente ao arguido."

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Finalmente, o dinheiro chegava então, literalmente, às mãos de Sócrates. A investigação detectou, entre Maio de 2006 e Dezembro de 2007, 17 transferências de José Paulo Pinto de Sousa das suas contas na Suíça para as contas de Canas em Cabo Verde. No total, foram €2.020.000.


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