Secretas e Judiciária investigam QAnon

Secretas e Judiciária investigam QAnon
Nuno Tiago Pinto 17 de fevereiro

O grupo de extrema-direita terá centenas de seguidores em Portugal. As autoridades encaram-nos como uma ameaça à democracia e estão a analisar as suas ligações aos “movimentos pela verdade” e a um membro da direção do Chega.


O relatório Estado de ódio -- o extremismo de direita na Europa, publicado esta terça-feira, destaca o artigo da SÁBADO acerca dos portugueses apoiantes do QAnon, um movimento conspiracionista. Recorde o trabalho, publicado em outubro de 2020.

O Serviço de Informações de Segurança (SIS) e a Unidade Nacional Contraterrorismo da Polícia Judiciária (PJ) estão a monitorizar a atividade em Portugal dos seguidores do movimento conspiracionista QAnon.

À semelhança do que já acontece noutros países europeus, as autoridades estão a tentar perceber se os adeptos deste movimento possuem ligações à extrema-direita portuguesa e a grupos de contestação social, como os chamados "movimentos pela verdade" que se têm manifestado contra o uso de máscaras ou medidas de distanciamento social para fazer face à pandemia da Covid-19. Para já foi identificada a presença de simpatizantes do QAnon nas manifestações dos últimos meses e a ligação de elementos do Chega à partilha de teorias da conspiração na Internet.

Mais do que uma eclosão de violência – como já aconteceu nos EUA onde o QAnon foi declarado uma ameaça terrorista –, quer o SIS quer a PJ pretendem impedir que através da disseminação intensiva da mentira este movimento consiga descredibilizar as instituições do Estado e tornar-se uma ameaça à democracia.

Os receios das autoridades não se baseiam apenas no que tem acontecido noutros países europeus, onde a pandemia criou as condições ideais para o crescimento da conspiração QAnon: já há indícios de que existem elementos ativos a tentar minar a estabilidade das instituições. 

O principal prende-se com a entrada na Procuradoria-Geral da República, a 3 de setembro, de uma denúncia anónima – cuja existência foi confirmada à SÁBADO por fonte judicial –, assinada por QAnon, que acusa as autoridades portuguesas de ocultarem deliberadamente o conteúdo de um dos discos rígidos apreendidos ao pirata informático Rui Pinto, na Hungria, com um alegado objetivo: esconder da sociedade as supostas provas de que Portugal e Espanha são controlados por uma elite de políticos e celebridades que se dedicam ao abuso sexual de menores.

Espalhar informação falsa
Esta teoria é em tudo semelhante à que tem sido disseminada nos últimos anos nos EUA pelos seguidores de Q, um alegado alto quadro do Governo americano, que acreditam também que Donald Trump é o homem que vai enfrentar essa conspiração das elites. Tal como nos EUA não existe qualquer prova que suporte esta teoria, também a Polícia Judiciária desmente categoricamente a informação contida na denúncia anónima: "os discos de Rui Pinto têm muita coisa, mas não têm nada disso", diz à SÁBADO fonte oficial da PJ. 

No entanto, três dias depois de chegar à PGR, o texto dessa denúncia foi publicado num site ligado à extrema-direita portuguesa e espanhola, que tem entre os seus colaboradores dois membros do Chega, Pedro dos Santos Frazão (vogal da direção) e Augusto Damásio (militante), e como diretor de conteúdos o colunista do Sol e entusiástico apoiante de Donald Trump, João Lemos Esteves.

Chamado Voz Ibérica, o site surgiu a 29 de julho de 2020 e intitula-se como a "Única plataforma de comunicação sem censura da comunidade ibero-americana e sefardita". O seu diretor e fundador, Carlos Caldito Aunión, esteve ligado ao Vox e aparece em dois vídeos a debater com outro colaborador do site, Juan Lankamp – assumido adepto da conspiração QAnon –, a existência de uma rede pedófila em Portugal e Espanha que envolve políticos, celebridades e desportistas. Ambos os vídeos surgem identificados com o hashtag #qanon. 


Desde que foi criado, o site tem publicado inúmeras informações sobre o Chega, incluindo longas entrevistas com os seus responsáveis, entre os quais Diogo Pacheco de Amorim. Pedro dos Santos Frazão, que entrou para a direção do partido liderado por André Ventura, publicou vários textos sobre a convenção que decorreu em Évora. E na rede social Twitter foi uma das pessoas que partilhou o link com o texto da denúncia anónima assinada por QAnon.

Contactado pela SÁBADO, Pedro Frazão confirma a ligação ao Voz Ibérica: "Quando passei a ter responsabilidades políticas no Chega o Observador deixou de me publicar os textos. Em conversa com o João Lemos Esteves ele convidou-me e aceitei. O que escrevi é da minha responsabilidade, o resto, não." Questionado sobre a partilha nas redes sociais da informação sobre a denúncia assinada por QAnon, Pedro Frazão diz que "um retweet não é um endorsement" e que muitas vezes partilha coisas "para as dar a conhecer". Sobre se acredita na teoria da conspiração de que Portugal é um país dominado por elites pedófilas diz: "Acredito que Portugal é um país corrupto. É só isso que quero dizer." 

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