“Os políticos não podem dizer o que lhes apetece sem justificação técnica”

“Os políticos não podem dizer o que lhes apetece sem justificação técnica”
Ana Taborda 17 de outubro de 2020

Estamos ainda longe do pico, os casos vão continuar a aumentar e pode haver mais períodos de confinamento, defende Constantino Sakellarides, antigo diretor geral de saúde, que critica o plano do Governo e a falta de informação. "A mensagem é: se não nos portarmos bem vamos ser castigados"

O antigo responsável pela Direcção Geral da Saúde (DGS), o médico Constantino Sakellarides, defende que o plano de preparação do Governo para os próximos meses de pandemia "não é bom" e que o Executivo não disponibiliza informação suficiente aos cidadãos. "Na prática, a mensagem é: se não nos portarmos bem vamos ser castigados e fechados em casa. Não é forma de lidar com este assunto", diz à SÁBADO. Num artigo científico que escreveu com Luís Campos, presidente da Comissão de Qualidade da Federação Europeia de Medicina Interna (Os desafios dos hospitais perante a covid-19 e a gripe sazonal) admitem que há o risco de as urgências colapsarem, que os hospitais não podem ser abandonados à sua sorte e que é preciso resolver o problema do défice de profissionais de saúde. E a gripe? "Temos a esperança de que, com aconteceu, este ano no inverno do hemisfério sul, o distanciamento, as máscaras e a higiene das mãos funcionem bem contra a transmissão do vírus da gripe. De qualquer forma, pelo sim, pelo não, devemos seguir as recomendações da DGS e não esquecer a vacina contra a gripe."

Tivemos, ontem, mais de 2.600 novos casos de COVID-19. Já podemos falar em crescimento exponencial? Estes números assustam-no ou eram previsíveis?
São números elevados. A OMS já manifestou a sua preocupação pelo "crescimento exponencial" de novos casos que se está observar na Europa. Em Portugal está também a esboçar-se uma situação desse tipo. Basta olhar para a evolução: na segunda quinzena de Setembro tínhamos chegado ao patamar de 800 novos casos. Nos primeiros 7 dias de Outubro atingimos os mil. Nos segundos 7 dias atingimos os dois mil, e dois dias depois os 2.600. Estamos próximos dos 3 mil. E 3 mil casos em Portugal correspondem a 13 mil por dia em Espanha, próximo do tem acontecido nos piores dias.

Há modelos que prevêem 6 mil casos por dia ainda este ano e um crescimento do número de infetados até 2021. O que pensa destes números?
São antecipações baseadas em modelos matemáticos com uma base metodológica muito discutível e, por isso, é difícil avaliar. Ter 6 mil casos por dia seria brutal, não posso dizer se acontecerá ou não. Agora, a evolução que temos permite-nos dizer com alguma segurança que não estamos ainda no pico. Mais do que isso é bola de cristal. 

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