Operação Marquês: O dinheiro e o poder de mãos dadas

Operação Marquês: O dinheiro e o poder de mãos dadas
Bruno Faria Lopes 17 de abril de 2018

José Sócrates acumulou um grau de influência sobre bancos, empresas e empresas de comunicação social sem precedentes na economia portuguesa.

No dia 30 de Junho de 2008, na apresentação de uma biografia do então primeiro-ministro José Sócrates – O Menino de Ouro do PS, da jornalista Eduarda Maio –, o socialista António Vitorino descrevia o governante assim: "É o primeiro líder do PS totalmente formado em democracia. Sócrates focaliza-se nos resultados. Sócrates percebe que nenhuma estratégia fixista pode ter sucesso num mundo em rápida mudança." A descrição parecia assentar no lado mais visível dos três primeiros anos de governação socialista. Sócrates liderara uma reforma da Segurança Social e chegara a introduzir o debate sobre a "flexi-segurança", dera a cara por um esforço de redução do défice orçamental, por medidas na Educação que levaram à maior manifestação de professores até então e por uma política de diplomacia económica orientada para as exportações. Sócrates ganhara reputação de pragmatismo e de um socialismo mais moderno sem pruridos de conviver com uma economia de mercado.

Mas quando Vitorino (acompanhado de um "emocionado" Manuel Dias Loureiro) apresentou o livro, já José Sócrates era o político da democracia portuguesa com maior influência directa, pessoal, na economia portuguesa. Este poder – que está retratado ao longo da acusação do Ministério Público na Operação Marquês – assentava em três pilares: influência sobre o financiamento à economia, influência sobre o andamento de grandes projectos (das obras públicas aos PIN – projectos de interesse nacional) e influência sobre os media. O controlo que teve nestas áreas não era total nem transversal à estrutura dos bancos, empresas e jornais. Mas revelou-se suficiente para criar um ambiente político mais favorável para ele, para seduzir ou pressionar críticos e, segundo a tese do Ministério Público, para intervir de forma cirúrgica para ganho próprio.

Da arma Caixa ao BCP
Na banca, o seu braço chegou à Caixa Geral de Depósitos, ao BCP e ao BES (juntos valem mais de dois terços do mercado de crédito às empresas). Logo em 2005, a equipa de administradores do banco público foi substituída, sendo nomeada uma administração próxima do PS – e próxima do primeiro-ministro Sócrates, através da ida de Armando Vara para administrador. Os procuradores do Ministério Público sustentam que Sócrates quis assegurar "controlo directo e pessoal" sobre o banco e que Vara "tomaria todas as decisões necessárias a lograr satisfazer a vontade e os interesses do arguido José Sócrates, ou de terceiros com quem estivesse conluiado".

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