O software que salva vidas do Hospital de São João que ninguém aproveitou

O software que salva vidas do Hospital de São João que ninguém aproveitou
Bruno Faria Lopes 26 de março

O software criado de raiz no maior hospital do país salva vidas, poupa milhões ao erário público e ganhou prémios internacionais. Ministro mandou estudar adaptação a outros hospitais. Nunca aconteceu.

António Ferreira, médico e ex-presidente do Centro Hospitalar de São João, no Porto, lembra-se bem dos doentes que agradeceram pelo "computador que lhes tinha salvo a vida". O computador é, na verdade, um programa informático que ajuda os médicos a salvar vidas ao antecipar em vários dias o agravamento da saúde dos doentes internados, que permite gerir os blocos operatórios eliminando listas de espera nas cirurgias e que poupa milhões de euros ao erário público. Tantas vantagens valeram ao projecto dois dos maiores prémios mundiais de inovação em Saúde e uma instrução de um ministro da Saúde, Paulo Macedo, para que se estudasse a viabilidade de exportar esse software para outros hospitais do Serviço Nacional de Saúde – até hoje, contudo, ninguém o aproveitou.

A história do software estrela começou em 2012, quando a administração do maior hospital do país, então liderada por António Ferreira, decidiu que precisava de uma ferramenta informática que desse apoio à gestão – a ideia era criar algo novo que integrasse todos os diferentes sistemas informáticos que o hospital usava e gerasse informação básica que faltava a quem geria o hospital. A administração do hospital decidiu fazê-lo num modelo raro na Administração Pública portuguesa: em vez de contratar uma grande empresa externa para tratar de tudo, contratou um aluno de mestrado da Universidade do Minho para desenvolver internamente o programa, com a assistência de uma empresa mais pequena.

"Tínhamos propostas de milhões de euros para fazer o projecto contratando fora e acabámos por fazer o mesmo por cerca de 100 mil euros", aponta António Ferreira. A este valor – pago à empresa DevScope, consultável no portal de contratação pública Base – acresceram os salários do quadro interno contratado para o projecto ficando tudo, ainda assim, bastante abaixo do preço de um outsourcing puro e duro. O trabalho foi concluído no final de 2012 e o hospital passou a ter um instrumento que permitia acompanhar em tempo real os problemas que ia surgindo na frente operacional, da gestão dos blocos operatórios – o que permitiu eliminar as listas de espera nas cirurgias – às camas ocupadas pelos doentes.  

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