Militares que combatem incêndios deixam Exército

Leonor Riso , Lusa 06 de março de 2018
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Sobrecarga horária e falta de equipamentos são apontados como os dois principais problemas.

Os militares que receberam treino ou que já têm experiência no combate aos fogos florestais estão a abandonar o Exército. A sobrecarga horária é apontada como um dos principais problemas que afasta estes profissionais.

Em 2017, "houve militares que estiveram dois meses sem conseguir ir a casa. E isso é quase impossível de gerir para um comandante", lamentam oficiais do Exército ao Jornal de Notícias. Os militares tiveram de passar dos exercícios para as missões de combate aos incêndios, não podendo descansar. Entre os cerca de 500 militares contratados e voluntários que deixaram o Exército, duas a três centenas saíram devido à sobrecarga horária.

Em 2016 saíram 430 militares voluntários e contratados e em 2015, saíram 650, confirmou o Ministério da Defesa, que este ano concordou com a contratação de mais 200 profissionais divididos pelos três ramos das Forças Armadas (Exército, Marinha e Força Aérea).

Rovisco Duarte, o chefe do Estado-Maior do Exército, não quer que as missões relativas aos incêndios e os exercícios militares coincidam. Por isso, já pediu que os exercícios Orion, Eficácia e Relâmpago fossem antecipados.

Segundo o JN, 1380 militares estão a ser formados no Regimento de Apoio de Emergência, em Abrantes, para as operações de rescaldo dos incêndios.

A sobrecarga horária não foi o único problema apontado no ano passado: também há falta de equipamento individual de combate aos fogos entre os militares. O concurso foi lançado mas o processo de aquisição, a cargo da Autoridade Nacional da Protecção Civil, não foi cumprido. O Exército adianta que, no entanto, em Março serão recebidos equipamentos para o combate aos incêndios.

Número de mulheres nas Forças Armadas está a descer desde 2010 
O número de mulheres nas Forças Armadas está a descer desde 2010, tendo atingido o valor mais baixo em 2017, segundo um estudo, que considera esta descida "inesperada e paradoxal".

A percentagem de mulheres nas Forças Armadas baixou de 13% para 10,5% entre 2010 e 2017, ano em que o efectivo totalizava 2.930 mulheres, segundo um estudo de investigadores do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES-IUL), que faz parte do livro "Desigualdades Sociais, Portugal e a Europa".

"Em 2017, verificou-se um retorno aos valores anteriores ao fim do serviço militar obrigatório [2004]", adianta o estudo publicado no livro "Desigualdades Sociais, Portugal e a Europa" que será divulgado na quarta-feira, em Lisboa, no colóquio comemorativo dos 10 anos do Observatório das Desigualdades.

No ano passado, as mulheres constituíam 10,6% dos militares da Marinha, 8,7% do Exército e 14,8% da Força Aérea em 2017.

Segundo o estudo, o aumento do número de mulheres nas Forças Armadas foi pronunciado até 2000, altura em que estabilizou, voltando a subir ainda mais acentuadamente a partir de 2004, ano em que terminou o serviço militar obrigatório e em que o recrutamento passou a ser exclusivamente voluntário.

"Essa tendência [de aumento] manteve-se até 2010, altura em que se inverteu e, pela primeira vez, se assistiu a uma redução significativa do número de mulheres, afectando em particular o Exército", sublinha o estudo.

A descida é explicada pela "forte redução de efectivos militares em contexto de crise", que penalizou sobretudo os regimes de voluntariado e contrato, nos quais as mulheres se concentravam numa percentagem superior à média.

Para os autores do estudo, "esta tendência de decréscimo da representação feminina é simultaneamente inesperada e paradoxal".

"Inesperada, uma vez que o aprofundamento do processo de profissionalização e os desafios de recrutamento que habitualmente se lhe associam conduziriam potencialmente a um reforço da componente feminina", sublinham.

"É paradoxal" no quadro dos compromissos assumidos por Portugal na implementação da resolução 1325 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que exorta os Estados a aumentar a representação feminina nas suas forças e nos contingentes enviados para missões internacionais.

Tal como noutros países, "o envolvimento de mulheres em actividades militares nas áreas mais operacionais tem sido objecto de resistências e dificuldades".

Apesar dos elevados níveis de aceitação da presença militar feminina, sobretudo entre os oficiais, "as atitudes relativas ao seu envolvimento operacional, em particular se se considerar também a categoria de praças, nem sempre revelou a mesma positividade", refere o estudo.

"O padrão de desigualdade que ainda persiste, bem como um significativo retrocesso em termos de níveis de representação, mostram como são por vezes frágeis os progressos conseguidos no plano da construção da igualdade e que uma permanente monitorização e avaliação de políticas e resultados se impõe", acrescenta.

O estudo adverte que a "inexistência de políticas concretas" em áreas que "provocam erosão nos níveis de empenhamento das mulheres", como a conciliação entre família e profissão, "poderá continuar a produzir efeitos nos níveis de integração de género nas forças armadas e, por essa via, na qualidade do relacionamento civil-militar em Portugal".

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