Dia 10, os dias do cuco e o vírus inteligente

Dia 10, os dias do cuco e o vírus inteligente
Eduardo Dâmaso 30 de março de 2020

A inteligência do cuco é, afinal, malévola. Como a do coronavírus, que explora todas as fragilidades do hospedeiro para entrar no seu corpo

Quando hoje ouvi a directora-geral de Saúde, Graça Freitas, a dizer-nos que "o vírus é inteligente" e que isto não vai ser uma luta " de uma quinzena" mas, pelo contrário, "vai durar meses", lembrei-me do cuco. Parece bizarro, mas é verdade. Lembrei-me dos tempos de criança em que passeava pelos campos com o meu pai e ele parava e dizia: "Escuta! É o cuco a cantar. É o cuco que traz a Primavera!". Nunca mais me esqueci desse pássaro bonito mas oportunista, como um vírus, que anuncia e nos traz a Primavera. Também ele é inteligente mas traz uma genética virulenta em matéria de procriação. Porque o meu pai também acrescentava: "É um pássaro que rouba os ninhos dos outros".

Mas, para mim, enquanto criança, o cuco, cucu-canoro (cuculus canorus) de seu nome, era um toque de fantasia. Da felicidade primaveril e estival. Traz-me, ainda hoje, a memória dessas tardes de cheiros a rosmaninho, perpétuas e flor de esteva. Traz-me o perfume do alecrim e da madressilva. Traz-me esse aroma inebriante dos campos alentejanos lá da minha terra, que antecipava as fogueiras de Santo António e São João. Desse final de Março a Junho era um tirinho de alegria e festa. Era um tempo rápido, esse, das férias da Páscoa, do Abril da Grândola Vila Morena, do Maio dos calores a pedirem praia, das noites quentes e estreladas de jogatanas de bola infinitas ou corridas de caricas nos muros da Praça Nova.

As noites eram enfeitiçadas na lua cheia e os dias azuis e brancos. Eram dias que traziam o cuco e bailavam enlouquecidos nos trinados dos pintassilgos, no piar aflito das andorinhas, que pareciam trazer mensagens urgentes do céu infinito, nas espigas loiras que rebentavam debaixo do som das cigarras ou do canto nocturno dos grilos. As tardes, essa expressão lânguida do estio, espremiam o sumo das primeiras nêsperas e o sabor açucarado dos diospiros. Tudo trazia no bico a notícia das férias grandes, esse já um tempo parado que deveria durar uma eternidade.

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