As Caldas da Rainha recebem pessoas desde 1901

Tânia Pereirinha 16 de abril de 2017

Primeiro foi uma questão prática: a cidade termal estava cheia de hotéis e de camas para emprestar. Agora o cenário é diferente. E nem todos os casos são de sucesso

Como tudo, pode ser uma questão de perspectiva - e se há coisa que o estado actual do mundo pós-Trump propicia é a visão do copo mais cheio do que vazio no que toca a refugiados acolhidos em países amigos e apoiados por populações (maioritariamente) não chauvinistas. Ainda assim, e por muito que reconheça o bom trabalho do Governo português no que toca à criação de condições para a recepção da última vaga de refugiados no País (terão sido 720 em 2016), Filipe Vinhinha, técnico da Cruz Vermelha Portuguesa da delegação das Caldas da Rainha, responsável pelos três eritreus recebidos no município, diz que o pior ainda está por vir.

O relógio não pára: chegados à cidade termal do distrito de Leiria a 18 de Março de 2016, os homens, de 26, 29 e 33 anos, já só têm mais oito meses do apoio institucional que lhes garante acesso à habitação e ao Serviço Nacional de Saúde e auxílio financeiro (6 mil euros no total para cada, 333 euros por mês). "O nosso objectivo é deixá-los autónomos ao fim dos 18 meses mas isso é muito difícil, se não impossível. Ainda têm o título de residência temporário e, como não trouxeram o certificado de habilitações quando fugiram do seu país, apenas com a roupa do corpo, não podem ser inscritos no Centro de Emprego. Claro que podem fazer o RVCC, o processo de reconhecimento e avaliação de competências, mas como não falam inglês, quanto mais português, não conseguem. Estamos a tratar de tudo para que possam submeter-se ao teste com a ajuda de um tradutor, mas também isso é complicado, tem de ser um tradutor certificado... No fundo, estamos a viver uma realidade diferente e é preciso que haja abertura para mudar a realidade que temos", explica o técnico. Que deposita mais esperanças na criação de um estatuto especial que incentive os patrões na hora de contratar refugiados, do que na possibilidade de serem elegíveis para receber o rendimento social de inserção - "Se não é solução para os nossos, também não será para eles."

Estamos na Praça da Fruta, onde dois dos rapazes eritreus trabalham diariamente, na montagem e desmontagem das bancas de venda de fruta, legumes, especiarias e afins (o terceiro conseguiu há meses um contrato de trabalho na cozinha de um hotel da região). Por entre as obras de cerâmica gigantes que compõem a rota de Rafael Bordalo Pinheiro, nada leva a crer que nos encontremos no centro de uma das cidades portuguesas com maior historial de acolhimento de refugiados. Mas desde que em 1901 recebeu 350 bóeres, derrotados na África do Sul pelos ingleses, é isso que as Caldas é.

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