A rede de influência do Benfica

Recorde aqui a primeira investigação da SÁBADO, em Setembro de 2017, que revelou as primeiras suspeitas sobre a existência de “toupeiras” do Benfica no sistema judicial.

Com mais uma final europeia à porta, a logística do Benfica implicava mais do que material desportivo, marcação de viagens e hotel. É nestas alturas que os clubes aproveitam para convidar personalidades da vida pública para se juntarem à comitiva. Foi isto mesmo que se passou em Maio de 2014, semanas antes da Final da Liga Europa entre o SL Benfica e o Sevilha, que decorreu no estádio da Juventus, em Itália. Coube ao assessor jurídico da SAD encarnada, Paulo Gonçalves, sugerir alguns nomes para acompanhar a equipa naquela final, pessoas que, segundo Paulo Gonçalves, num email de 5 de Maio de 2014, teriam "de alguma maneira ajudado a alcançar" o objectivo ou "ajudado o SLB no passado". E entre os nomes estavam: Andreia Couto, funcionária da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, Nuno Cabral, um antigo delegado e personagem central no chamado "caso dos emails" e um "eng. Fidalgo", tratando-se de Emídio Fidalgo, "responsável pela nomeação dos delegados na Liga e decisivo nos pareceres que emitiu...".

São estas ligações entre responsáveis do Benfica com dirigentes das estruturas do futebol que a Unidade Nacional Contra a Corrupção da Polícia Judiciária (UNCC) está a investigar. A 19 de Outubro, 28 inspectores fizeram dezenas de buscas pelo País. Entre os alvos estavam Luís Filipe Vieira, presidente do SLB, Paulo Gonçalves (o único arguido do processo), Nuno Cabral, antigo delegado da Liga, Ferreira Nunes, ex-membro do Conselho de Arbitragem e Pedro Guerra, antigo jornalista e comentador desportivo, e Adão Mendes, ex-árbitro. Todos são personagens que constam dos emails internos do Benfica, que em Maio começaram a ser divulgados pelo Porto Canal – a que a SÁBADO teve acesso – e que, segundo o mandado de busca exibido pelos inspectores da PJ aos alvos, estarão relacionados com o inquérito: "Os factos sob investigação respeitam à suspeita da actuação de responsáveis do SLB SAD, que, em conluio com personalidades do mundo do futebol e da arbitragem, procuraram exercer pressão e influência junto de responsáveis da arbitragem e outras estruturas de decisão do futebol nacional, tendo em vista influir na nomeação e classificação de árbitros nesse âmbito."

A nova juíza do processo, Margarida Gaspar, justificou a autorização das buscas domiciliárias aos suspeitos com o trabalho que a PJ terá feito nos últimos meses no processo. Depois de citar que estes "novos elementos probatórios" recolhidos pela Judiciária se encontram resumidos num relatório de 19 páginas, a magistrada considerou que estavam "adensadas as suspeitas" da prática de crimes. Por isso, nesta fase do processo, Margarida Gaspar considerou que havia "razões para crer que as buscas à residência dos suspeitos (…)" se revestiam de "grande interesse para a descoberta da verdade e para a aquisição de meios de prova relacionados com os crimes em investigação".
Durante as buscas, os investigadores da PJ e do MP estiveram concentrados na recolha de dois grandes tipos de documentação: a electrónica, que constava de computadores e telemóveis dos alvos, e também informação em papel, nomeadamente blocos de notas, diários e cadernos de apontamentos. Ao que a SÁBADO apurou, as equipas da PJ procuraram obter "documentação financeira", inclusive os registos documentais das contas correntes do Benfica SAD com  sociedades de advogados como a Vieira de Almeida e Associados (VdA), uma situação que na altura causou alguma surpresa junto de vários elementos ligados ao clube da Luz que estavam presentes na operação judicial. Curiosamente, este episódio foi visto por uma das sócias da VdA que acompanhou as buscas, a advogada Sofia Ribeiro Branco. A advogada é um dos três membros da VdA que está a colaborar com o Benfica SAD no caso dos emails, nomeadamente nas acções intentadas contra o Porto Canal e o assessor do FC Porto, Francisco J. Marques.

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