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Autárquicas 2017

PSD ou o velório a que ninguém foi

02.10.2017 09:02 por Maria Henrique Espada
Manda a etiqueta que vá alguém apoiar os vivos e velar os mortos. Não foi assim na São Caetano à Lapa. O partido deixou o líder sozinho na pior noite eleitoral autárquica de sempre
Foto: Lusa
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O PSD conseguiu 79 câmaras municipais, menos de metade do que os socialistas.
Foto: Raquel Wise
Foto: Lusa

Passos Coelho


"Então, foi um velório, no PSD?" Não. A noite eleitoral do PSD não foi um velório, por que num velório os parentes e amigos vão velar o falecido e apoiar os vivos que ficam. A solidão de Pedro Passo Coelho na noite da derrota eleitoral não tem paralelo: fora os seus mais próximos, que por inerência de pertença à direcção tinham de estar por ali, não houve palmadinhas de conforto nas costas. Basicamente, ninguém apareceu, ninguém foi, fora do seu círculo mais próximo, dar uma palavra de apoio na hora má. Na São Caetano à Lapa, durante toda a noite, só houve jornalistas e funcionários do partido. Teresa Leal Coelho, a candidata em Lisboa, escolha e amiga pessoal, passou por lá, e – notável excepção – também José Eduardo Martins, que foi candidato à assembleia municipal apesar de ser há muito um crítico assumido da direcção. De resto, na derrota, Passos esteve sozinho. À saída, uma funcionária do partido disse-lhe, enfática: "Nem pense." Foi a solidariedade que lhe restou. Não havia bandeiras na rua. 

Há outra noite, na história da política portuguesa, em que umas autárquicas destruíram uma liderança: a de António Guterres, no PS, em Dezembro de 2001. Duas diferenças: o socialista foi mais rápido que Passos a sair, fê-lo nessa noite; e esteve nessa noite rodeadíssimo pelos notáveis do partido.

Marques Mendes disse que se Passos Coelho não saísse seria o inferno – sítio onde se sabe, está o Diabo. Passos escolheu uma espécie de purgatório. Não sai já, vai avaliar se tem condições para uma recandidatura. Os telefonemas que não recebeu na noite de domingo talvez sejam um começo de resposta. Pode sempre tentar resistir, coisa que de resto está no seu feitio – e ele avisou que a decisão é pessoal. Mas já não pode dizer que não tem a medida da enorme solidão que o acompanha.

Não deixa de ser curioso que, se decidir não se recandidatar, Passos vai baralhar as contas de quem já tinha deixado claro que ia avançar: Rui Rio era o adversário expectável contra Passos. Sem Passos na equação, Rio pode dizer adeus ao cenário de "unicidade" dos críticos em torno da sua candidatura. Terá certamente outros adversários, talvez menos previsíveis. 

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