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Autárquicas 2017

E Costa finalmente ganhou

01.10.2017 22:51 por Eduardo Dâmaso
Quando finalmente ganhou umas eleições a Passos Coelho, Costa ganhou a sério e sai com os trunfos todos do seu lado.
Foto: Lusa
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António Costa em arruada

O Presidente da República, que por vezes regressa à veia de analista político, tinha razão: estas eleições autárquicas podem abrir mesmo um novo ciclo político. Só não sabemos se Marcelo Rebelo de Sousa estava a pensar ‘neste’ ciclo político em que António Costa se afirma na liderança absoluta do jogo político, seja qual for o tabuleiro. Quando finalmente ganhou umas eleições a Passos Coelho, Costa ganhou a sério e sai com os trunfos todos do seu lado.

1 – A guerra da legitimidade política

De uma penada, Costa conseguiu muitas coisas. A primeira e mais importante: ganhou de forma contundente e eliminou simbolicamente a querela em torno da sua legitimidade política, depois de ter transformado uma derrota nas legislativas de 2015 em expressiva vitória ao montar a geringonça com o PCP e o BE. Costa e o Governo saíram reforçados mas, mais do que isso, o líder do PS também alargou muito o seu espaço político a médio prazo e, provavelmente, pode ficar em condições de escolher sozinho o caminho que terá de fazer na governação. As sondagens deixam-no em condições de ganhar eleições legislativas com maioria absoluta e de poder fazer o que quiser com ela.

Esta vitória dá a Costa uma dinâmica política e eleitoral que lhe permitirá, se quiser, manter a geringonça à esquerda mas também dispensá-la. Costa pode, por outro lado, ficar à espera de uma mudança e renovação do PSD para negociar reformas estruturais – a sua Agenda para a Década, que fez com Rui Rio – mais ao centro.

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2 – O Diabo levou Passos

E se estas eleições autárquicas são uma manifestação exuberante dessa nova etapa de Costa, elas são também o marco inelutável da incapacidade de Passos Coelho em recuperar desse rude golpe de 2015. Daí para cá, o líder do PSD fez tudo mal: anunciou que vinha aí o diabo; que a ‘geringonça’ não resistiria; afastou-se do Presidente da República que, aliás, não era o seu candidato; escolheu mal os candidatos autárquicos; foi ficando cada vez mais solitário, sem equipa e sem discurso.

O Diabo realmente chegou mas foi para levar Passos para o Inferno. O líder do PSD foi humilhado em Lisboa e no Porto, vai ficar com menos votos e menos câmaras, fica com a espada no pescoço e sem condições para continuar à frente do partido.

3 – O triunfo de Cristas

A líder do CDS-PP foi a segunda grande vencedora, a par de António Costa, destas eleições. A sua aposta em ir a jogo em Lisboa demonstrou a ousadia e a garra necessárias para cimentar uma liderança. O resultado obtido teve o duplo sabor de a reforçar enquanto líder do partido mas também do espectro de toda a direita, empurrando, também ela, o PSD para uma saída pela porta dos fundos. Enquanto o PSD não resolver o problema da liderança, Cristas será, sem dúvida, a líder da oposição a António Costa e ao PS.

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4 – As contas amargas do PCP

É oficial: Jerónimo de Sousa deixou aberta a porta para uma atitude mais dura em relação ao PS e ao governo. O PCP perdeu "oito ou nove ", disse Jerónimo na sua intervenção desta noite, do seu pecúlio de 34 câmaras e isso, apesar do bom resultado em Lisboa, é uma derrota. E é uma derrota muito simbólica. Grande parte daquelas perdas são no Alentejo e Ribatejo, território histórico da implantação do PCP, que vem praticamente das primeiras décadas do século XX. Foi o trabalho clandestino do PCP junto dos trabalhadores agrícolas do Alentejo e do Ribatejo, porventura, o principal responsável pela eliminação da jornada de trabalho de sol a sol, ainda bem longe da metade do dito século XX. Foi essa presença constante dos comunistas junto dos trabalhadores alentejanos e ribatejanos que reforçou, nos alvores do 25 de Abril, o PCP enquanto grande partido da Reforma Agrária e das autarquias.

As derrotas em Castro Verde, Mora, Barrancos, Alandroal e Constância, Barreiro e Beja podem ser compensadas eleitoralmente pelos ganhos em Lisboa mas têm uma força simbólica tal que Jerónimo de Sousa não conseguiu – nem quis – iludir na sua intervenção. E deixou claro que, apesar de muitos eleitores não terem adquirido a "consciência" de que terá sido a força do PCP a levar o PS a acelerar a devolução de direitos aos portugueses, roubados pela direita e pela troika, os comunistas vão continuar nessa linha de luta. Adivinha-se, no entanto, um grau de exigência maior dos comunistas face ao governo minoritário do PS e, provavelmente, um aumento da contestação nas ruas.

Esta posição do PCP, que também viu o Bloco de Esquerda crescer à sombra da ‘geringonça’, não deixa, porém, de fazer parte do pecúlio que Costa leva no bornal com estas autárquicas. O PCP, na verdade, está entre a espada e a parede. Constatou que não tira partido da ‘geringonça’, pelo contrário, perde votos, mas, por outro lado, não pode ficar com o ónus de derrubar o governo. Também aqui, António Costa, tem o domínio do tabuleiro de xadrez.


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