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Portugal

Os inimigos de estimação de Mário Soares

10.01.2017 20:18 por Marco Alves
Cavaco, Cunhal, Eanes, Alegre, Zenha e Freitas - as candidaturas a Belém foram quase sempre o palco da batalha final
Foto: Jorge Paula
Foto: Sábado
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O cliché de se dizer que alguém foi "maior do que a vida" aplica-se a Mário Soares, e isso implica também a existência de um lado menos pacífico da sua vida: as guerras, as inimizades, os berros, as traições, os insultos e as intrigas.

Isto partindo do pressuposto de que Soares não tirava gozo de um bom choque de personalidades.

Do tanto que há para contar, eis os seis maiores "inimigos" políticos da vasta carreira de Mário Soares em democracia (porque antes dela, houve Salazar e Marcello Caetano).

Álvaro Cunhal

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Os dois "galos" do pós-25 de Abril. Antes da Revolução prevaleceu a lógica do "inimigo do meu inimigo (o Estado Novo), meu amigo é". Depois, veio a luta pelo poder. Ficaram célebres os debates televisivos, com Soares a acusar Cunhal de querer impor uma nova ditadura em Portugal, agora de esquerda. Cunhal pouco mais conseguia do que sorrir e dizer "olhe que não, doutor, olhe que não…" Em 1986, Cunhal fez o sacrifício de recomendar o voto em Soares na corrida final contra o candidato da direita à Presidência da República, Freitas do Amaral.

Salgado Zenha



Contemporâneos da luta contra o regime do Estado Novo (Soares em Lisboa e Zenha em Coimbra), andaram pelo Partido Comunista e pela Acção Socialista até fundarem o PS na clandestinidade. A ruptura começou já em liberdade quando, em 1976, Soares não convidou Salgado Zenha para ministro. A gota de água aconteceu quando Mário Soares se recusou a apoiar a candidatura de Eanes (outro fiel inimigo) à Presidência da República. Em 1986, é o próprio Zenha que se candidata – do outro lado estava Mário Soares. As divergências entre os dois seriam atenuadas com o tempo, mas a rancor nunca desapareceu.

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Ramalho Eanes



Soares apoiou Eanes na corrida a Belém em 1976, mas os dois estilos de homem rapidamente entraram em choque. Dois anos depois, Eanes exonerou Soares do cargo de primeiro-ministro. Mário Soares já não o apoio na segunda campanha presidencial. Em 1986, Eanes vinga-se com o patrocínio de Salgado Zenha a Belém… contra Soares. Com a saída de Ramalho Eanes da política, a guerra quase extingui-se.

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Freitas do Amaral



Foram eles que protagonizaram aquela que foi provavelmente foi a corrida presidencial mais dramática, a de 1986, com Soares a ganhar ao sprint. Pelo meio, insultos e alguma violência. Com o tempo, foram-se aproximando, quase ao mesmo ritmo com que Freitas do Amaral (que foi presidente do CDS-PP) começou a "sair" da direita e a entrar no centro-esquerda (chegou a ministro dos Negócios Estrangeiros do governo de José Sócrates).

Cavaco Silva

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Depois de Cunhal, foi o seu maior inimigo de estimação em tempos de liberdade. Soares achava Cavaco um tecnocrata, um homem sem mundo. A antítese do que se achava ele próprio. Uma das primeiras consequências da subida de Cavaco Silva à liderança do PSD, em 1985, foi o fim do Bloco Central, o governo liderado por Mário Soares com o apoio do PS e do PSD. Seguiram-se dez anos de guerras mais ou menos surdas entre Cavaco Silva (em São Bento) e Mário Soares (em Belém). "Presidências abertas", "direito à indignação", "acabar o mandato com dignidade" e "forças de bloqueio" são alguns dos termos com que se cunhou a rivalidade. Em 2006, Cavaco recandidatou-se a Belém e Soares, inesperadamente, avançou também, aos 82 anos. Mas perdeu.

Manuel Alegre



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Foi preciso passar muita água sob o Largo do Rato para que estes dois históricos do PS se incompatibilizassem. Em 2005, Alegre avançou para a Presidência da República à revelia de José Sócrates, que escolheu como candidato oficial… Mário Soares. Alegre ficou com 20% dos votos contra 14% de Soares. Cinco anos depois, Alegre recandidatou-se e Soares vingou-se na sombra ao lançar a candidatura de Fernando Nobre, do mesmo espaço político do ex-amigo.


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