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Excertos de um livro maldito que faz anos

SÁBADO 22 de janeiro de 2015

A edição da SÁBADO de 22 de Janeiro conta a história de Contos Proibidos, de Rui Mateus, um livro sobre dinheiro e partidos que gerou polémica, sobretudo no PS. Leia alguns excertos

A SÁBADO publica na sua edição de 22 de Janeiro a história do livro maldito da política portuguesa, os Contos Proibidos, Memórias de um PS desconhecido, de Rui Mateus, que foi posto à venda a 27 de Janeiro de 1996. Muito se falou de corrupção e tráfico de influências na altura - como muito se fala agora, quase duas décadas depois. Veja alguns excertos de um livro polémico e do qual já não existem reedições no mercado. 

A Emaudio e Berlusconi

"Foi neste conturbado clima que nasceu a Emaudio, Sociedade anónima de empreendimentos audio-visuais. No dia 17 de Fevereiro encontrar-me-ia, como combinado, em casa de Mário Soares onde Ivanka Corti era convidada para o almoço. Ali, embora ainda sob a emoção da vitória, Soares explicaria que tinha ideia de aproveitar os recursos de algumas fundações partidárias que lhe eram afectas, para participar na tão falada privatização dos meios de comunicação social e abertura da TV ao sector privado. Queria primeiro estudar melhor o assunto, mas desde logo pediria à convidada italiana que transmitisse um convite seu a Silvio Berlusconi para vir a Portugal.

Este não perderia tempo e chegaria pouco tempo depois a Lisboa, no seu avião pessoal, acompanhado de Ivanka Corti. Estava disposto a associar-se ao grupo do presidente Mário Soares se isso, estou convencido, lhe pudesse trazer mais benefícios do que investimentos. Antes do jantar, no Palácio de Belém, os seus técnicos seriam autorizados a montar ali uma espécie de mini-estúdio de TV com equipamento, para a altura ultra sofisticado, que trouxera consigo no avião. Depois da refeição demonstraria até altas horas o seu «produto» ao Presidente da República e aos seus convidados portugueses, os quais viriam a constituir o grupo Emaudio.

Em reunião que teve lugar na sua casa de campo em Nafarros, Soares reuniria os elementos escolhidos para formar o grupo a quem explicaria os objectivos. O seu filho, que até então vivera numa relativa obscuridade política. Estivera à frente da editora «Perspectivas & Realidades» e fora acessor jurídico do Grupo Parlamentar do PS mas, antes da eleição do pai, chegara a contactar-me para lhe arranjar uma bolsa para estudar direito marítimo na Holanda e «qualquer trabalho em instituto de estudos ou fundação ligada com o direito do mar ou com a cooperação com a África ex-portuguesa ou o Brasil».

Almeida Santos, a quem competeria a orientação jurídica do projecto, era desde há muito o braço direito de Soares. Bernardino Gomes, que anos antes tinha definido as «regras» para a viabilidade das empresas ligadas ao PS. Carlos Melancia, homem da sua máxima confiança e reconhecido pela sua competência técnica, com boas ligações quer com a Igreja quer com o grupo do «ex-secretariado» que então dirigia o partido. Raúl Junqueiro, muito ligado a Melancia e que tinha liderado, no Governo e na A.R., as questões do PS relacionadas com TV e telecomunicações. Menano do Amaral até então gestor do PS e do MASP, a quem caberia a administração financeira do projecto. João Tito de Morais que tinha sido o homem do PS e da confiança pessoal de Mário Soares na administração da RTP, da ANOP e, então, dirigia a CEIG, a Cooperativa que editava e imprimia tudo o que tinha que ver com o Partido em matéria de imprensa, incluindo o Acção Socialista e o Portugal Socialista.

Era proprietária de um semanário de desporto automóvel, Autosport e outro de música chamado Blitz. Para além disso imprimia comercialmente jornais como o Correio da Manhã, O Independente e partes do Expresso. Eu seria o oitavo elemento escolhido em virtude de deter a presidência da FRI, que assumira por sugestão de Mário Soares após a sua eleição. A Emaudio, que então ainda não tinha sido baptizada, não seria senão uma nova tentativa de realização de um velho sonho do Partido Socialista em geral e de Mário Soares em particular. Após várias tentativas frustradas para ocupar um espaço na comunicação social — área então considerada vital para o sucesso eleitoral do Partido e do seu secretário-geral — após a sua «difícil» eleição, Mário Soares, decidira juntar os meios de que dispunha à volta da CEIG, da FRI e do MASP à sua nova imagem presidencial, para realizar o «velho» sonho. O timing não poderia ser melhor, uma vez que a sua imagem saíra reforçada das eleições presidenciais. Por outro lado, com a tangencialidade da vitória e a necessidade de reocupar o espaço perdido para Constâncio no PS, não havia tempo a perder em matéria de estratégia para a reeleição. E o país estava receptivo à privatização dos meios de comunicação social.

Os meios à disposição não seriam tão pequenos como isso. A CEIG era ainda, naquela altura, uma das principais empresas gráficas do nosso país, o grupo «soarista» detinha ainda posições importantes em algumas fundações e empreendimentos da área socialista e, aparentemente, restavam ainda fundos consideráveis angariados para o MASP e que Mário Soares controlava através dos seus tesoureiros."

 

Os consultores que queriam tramar Freitas

"Lee Atwater e Paul Manafort , dois dos proprietários da empresa de Relações Públicas Black, Manafort, Stone & Kelly chegariam a Lisboa num voo da TWA às 7:30h de domingo, dia 3 de Março. Na parte da tarde eu próprio os iria buscar ao hotel Meridien para depois os levar a uma longa conversa com Mário Soares, na sua casa de Nafarros. A eles exporia, com sinceridade maçónica, como ele próprio sentia a situação, quem seriam os prováveis candidatos e a improbabilidade matemática da sua eleição. Os americanos explicariam como trabalhavam e como tudo era possível desde que houvesse meios. Falou-se muito de Freitas do Amaral, o candidato do PSD e do CDS que mais chances tinha de ganhar e de Francisco Salgado Zenha, o que mais probabilidades tinha então de ir à segunda volta. E falou-se de Maria de Lourdes Pintasilgo, uma falada candidata que logo despertaria as atenções dos public relations do presidente Ronald Reagan. Entre os truques que eles tinham possibilidade de «plantar», caso fosse caso disso, para desacreditar um candidato como Freitas do Amaral, no momento decisivo da campanha, havia o lançamento de um artigo num grande jornal como o New York Times, através das suas «toupeiras», que embora descrevendo o candidato com noventa por cento de informação rigorosa, incluiria dez por cento de ficção. Por exemplo, seria revelada uma associação secreta avassaladora ao KGB, que seria impossível de verificar em tempo útil. O feedback dessa informação correria mundo e adquiriria tal veracidade que acabaria por se transformar num elemento implacável de dúvida sobre a integridade do candidato.

Soares estava absolutamente eufórico e, depois de vária s horas de conversa, decidiria apresentar o seu novo trunfo ao seu think thank que se encontrava reunido nessa noite na sede da Fundação de Relações Internacionais. Lá estavam, entre outros de que não me recordo, Gomes Mota, Vitor Constâncio, Jaime Gama e Vasco Pulido Valente.

Depois, no dia seguinte e após nova reunião, apresentá-los-ia à sua Comissão Técnica e a Serras Gago, o elemento encarregado dos estudos de opinião. Antes de partir tiveram oportunidade de dizer a Mário Soares que o seu trabalho era para ser pago. A partir daí ficariam em contacto com a CTE do MASP e, em particular com Serras Gago, vindo a Portugal em inúmeras ocasiões para contactos com Mário Soares e Almeida Santos."

 

Os 50 mil contos dos alemães

"O funcionário daquele banco, o Chase Manhattan em Lisboa, informaria que seria melhor ser Strecht Monteiro a depositar o cheque, já que vinha emitido em seu nome, podendo depois transferir aquela quantia para a conta da Emaudio. Strecht disse que ele próprio trataria do assunto e saiu disparado. Telefonaria mais tarde dizendo que tinha resolvido o assunto com o seu banco de Santa Maria da Feira, pedindo se o meu motorista o poderia ir buscar ao aeroporto no dia seguinte. E assim aconteceria. No dia seguinte apresentar-se-ia na Rua da Palmeira com um saco donde retiraria massos de notas de cinco mil escudos, no total de cerca de cinquenta mil contos. Estariam presentes inicialmente João Tito de Morais e eu, chegando Menano do Amaral no momento em que eram contados os maços.

Ao mesmo tempo que Strecht Monteiro partia com o seu saco, muito pouco tempo depois de ter chegado, seriam entregues numa pasta de cabedal 31 mil contos à directora administrativa que, juntamente com um cheque de quatro mil contos que Menano do Amaral trouxera consigo, os iria depositar na conta da Emaudio e transferir para a Portopress, a empresa editora da Face, do Notícias de Primeira Página, do Autosport e do Blitz. Esta verba oriunda da Weidleplan, embora depositada para realização do capital de todos os accionistas da Emaudio na Portopress, seria essencialmente utilizada para pagamento de salários de jornalistas e aquisição de papel de jornal. Os restantes cerca de 19 mil contos seriam guardados na casaforte na cave da empresa e, alguns dias depois, depositados igualmente na conta da Emaudio.

Este episódio aconteceria numa altura de grande perturbação para mim e alguns dos seus contornos são um pouco nebulosos. Não porque, tanto quanto eu sei, a entrega daquela contribuição tivesse algo de invulgar — era exactamente igual a tantas outras que ocorreriam no âmbito do PS e das suas fundações, ao longo de inúmeros anos —, mas porque estava mais preocupado com a súbita doença de meu pai, que viria a falecer no dia 10 de Janeiro. Não tivesse sido esse triste acontecimento e a entrega do donativo político da Weidleplan teria ocorrido na minha ausência. A data e método de entrega seriam da exclusiva responsabilidade dos alemães e do seu representante, Strecht Monteiro.

Quando Menano do Amaral e eu nos encontrámos com Stanley Ho em Dezembro, e ele não só declararia a sua vontade de investir na Emaudio como afirmara poder adiantar cem mil contos até à concretização da sua participação no capital da Emaudio.

Esta estaria, em princípio, prevista para uma sua visita a Portugal em 1989. Curiosamente, a 13 de Janeiro emendaria a sua oferta do mês anterior, condicionando aquele adiantamento a uma caução sobre o edifício da Emaudio. Pouco tempo depois, Mário Soares convocaria os accionistas da Emaudio para um almoço de trabalho na sua casa de Nafarros. Só não estaria presente Raul Junqueiro. Seria feita uma análise dos projectos em curso, das disponibilidades do grupo, das relações com Maxwell que, pela primeira vez começavam a levantar dúvidas, e das intenções de Stanley Ho e da Interfina.

Pouco tempo antes tinham sido recebidos os cinquenta mil contos da Weidleplan e outras contribuições por intermédio de Almeida Santos, e seria dada luz verde ao pagamento dos trinta mil contos pedidos por Melancia segundo as disponibilidades do grupo.

Mário Soares acusaria então a administração da Emaudio de estar a ser alvo de muitas críticas e de, após o caso TdM, estar ele próprio em declínio de popularidade.

Depois diria querer alterar o projecto, exigindo que eu lhe entregasse as sessenta mil acções da Fundação de Relações Internacionais e das quais, por sua própria sugestão, eu era fiel depositário, enquanto presidente daquele instituto."

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A SÁBADO publica na sua edição de 22 de Janeiro a história do livro maldito da política portuguesa, os Contos Proibidos, Memórias de um PS desconhecido, de Rui Mateus, que foi posto à venda a 27 de Janeiro de 1996. Muito se falou de corrupção e tráfico de influências na altura - como muito se fala agora, quase duas décadas depois. Veja alguns excertos de um livro polémico e do qual já não existem reedições no mercado. 

A Emaudio e Berlusconi

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