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Portugal

A factura do Lidl que tramou Pedro Dias

02.11.2017 18:06 por Alexandre R. Malhado
O julgamento do alegado homicida de Aguiar da Beira arranca esta sexta-feira no tribunal da Guarda. A SÁBADO começa hoje a divulgar os principais argumentos da acusação.
Foto: Cofina Media/Lusa
Foto: CMTV
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Pedro Dias 2

Eram 11h44 de dia 11 de Outubro de 2016. Pedro Dias tinha dormido pouco mais de uma hora naquela noite, que juntou copos, roubos e quatro tentativas de homicídio – de dois militares da GNR e um casal. Enquanto a PJ já investigava os incidentes daquela noite, Pedro Dias continuava em fuga a caminho de Serra da Freita, onde iria arrombar uma casa desabitada, cuja proprietária é uma conhecida que vivia no Porto. A poucos minutos do meio-dia, Pedro Dias parou no supermercado Lidl de São Pedro do Sul para fazer compras, sem saber que essa paragem iria incriminá-lo seis dias depois, podendo ser um trunfo forte no seu julgamento, a partir desta sexta-feira.

Segundo o processo, a que a SÁBADO teve acesso, as primeiras pistas surgiram no mesmo dia dos crimes. Pela tarde de dia 11, quatro inspectores da PJ estiveram numa estrada de terra batida que percorre a Serra da Freita, localizada entre Póvoa das Leirias e Candal. Naquele local, segundo informações da GNR da Guarda, o arguido havia dissimulado um Toyota Hilux azul, que usara para escapar de uma perseguição policial entre São Pedro do Sul e a Serra da Freita.

Perto do veículo usado por Pedro Dias, os inspectores encontraram um saco de compras, e a Glock de 9mm roubada aos GNR e usada para matar o casal Luís Pinto e Liliane Pinto. A arma viria a revelar o ADN do arguido. Curiosamente, entre a 1500 e 2000 metros do carro, junto a uma linha de água, foi apreendido um saco preto com um mapa de Portugal, um caderno com dados sobre Pedro Dias e a factura do Lidl de São Pedro do Sul, que viria a ser crucial.

No dia 17 de Outubro, os inspectores da PJ Maria José Fino e José Melício cruzaram a factura do Lidl com as câmeras de videovigilância do supermercado – e apanharam Pedro Dias em flagrante. Nas imagens, o arguido fez compras no Lidl durante 15 minutos e 8 segundos, entre as 11:29 e as 11:44. Sem falar com ninguém, percorreu os corredor dos frescos, das bebidas alcoólicas, das arcas frigoríficas e dos produtos de higiene. Comprou pelo menos seis pacotes de leite de litro e meio e seis garrafas de água. Saiu do estabelecimento com dois sacos de compras, que colocou dentro da carrinha Toyota Hilux, emprestada pela ex-namorada, e arrancou a caminho de Arouca.

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Depois das imagens captadas pelo Lidl, não restava mais dúvidas: era Pedro Dias quem estava ao volante daquele Toyota Hilux azul, encontrado na Serra da Freita. Contudo, o arguido acabou por trocar as voltas às autoridades, trocando de carro mais de cinco vezes e refugiando-se em casas de amigos, empreendimentos turísticos e minas antigas. Pedro Dias só foi detido ao se entregar, após mais de 40 dias de fuga.

O ADN de Pedro Dias estava em toda a parte
Armas, roupa, veículos e pessoas. Pedro Dias soube fugir, mas o laboratório da PJ encontrou o seu rasto em (quase) todo o lado.

Segundo o processo, o perfil de ADN do arguido estava na pistola Glock de 9mm usada sobre Luis Pinto e Liliane Pinto, roubada ao GNR falecido. Além disso, foram encontrados vestígios num gorro apreendido na Serra da Freita, na camisola creme encontrada na casa da avó de Pedro Dias (que tinha resíduos de arma de fogo) e, até, no casaco da ex-mulher Ana Cristina Laurentino.

Pedro Dias tentou usar ex-mulher para álibi
O ADN encontrado no casaco da ex-mulher prova que houve, de facto, um encontro entre os dois em Vila Chã, poucas horas (8h20) depois dos alegados homicídios. Segundo o interrogatório à ex-mulher, Ana Cristina admitiu que se encontrou com Pedro Dias, que a havia interceptado a caminho do trabalho para lhe pedir para o ilibar.

"[Ana Cristina] foi com ele [Pedro Dias] até Vila Chã, tendo o mesmo pelo caminho lhe comunicado, com um certo contentamento, que tinha ganho uma acção judicial de tutela da filha Maria, pedindo-lhe então que se alguém lhe perguntasse pelo seu paradeiro que respondesse que ele, Pedro João, tinha ido a sua casa na noite anterior, para lhe contar do sucedido à sua filha Maria e que tinha jantado com a depoente, tinha ido sair e que teria acabado por passar ali a noite na sua companhia", lê-se na descrição de interrogatório da PJ a Ana Cristina. Segundo a ex-mulher de Pedro Dias, que não lhe revelara os crimes na altura, o arguido terá dito: "Não se passa nada, faz-me só esse favor".

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Contudo, ao saber das suspeitas de crime, Ana Cristina acabou por não cumprir com o prometido e acabou por não o ilibar. Durante o interrogatório, Ana Cristina garantira que não suspeitou do comportamento de Pedro Dias na altura. "Para aquilo que eu já lhe conheci, ele estava bem...", terá dito a ex-mulher do suspeito à PJ.

O julgamento de Pedro Dias arranca a 3 de Novembro de 2017. O Ministério Público acusa-o de dois homicídios qualificados, três homicídios qualificados sob a forma tentada e três crimes de sequestro, bem como de vários crimes de roubo de automóveis, armas da GNR e dinheiro, e de detenção, uso e porte de armas proibidas. Fátima Reimão é acusada de um crime de favorecimento pessoal.


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