O estranho hábito de elogiar quem ainda mexe
Dulce Garcia Sub-Directora da SÁBADO
29 de fevereiro de 2016

O estranho hábito de elogiar quem ainda mexe

Hás-de dizer-me quando é que os portugueses dizem bem de outros portugueses, sobretudo se estes obtêm sucesso – e no estrangeiro

– O que é que se passa com o Guterres, sabes?
– Não faço ideia.
– Deve estar doente e não deve ser coisa boa. Com tantos elogios e convites...
– Ah, não, está a concorrer a secretário-geral das Nações Unidas.
– Estranho.
– Porquê? É um cargo de altíssimo gabarito.
– Por isso mesmo. Hás-de dizer-me quando é que os portugueses dizem bem de outros portugueses, sobretudo se estes obtêm sucesso – e no estrangeiro.
– Não me parece que sejamos tão invejosos como dizes.
– Falo do que conheço. A minha prima Adélia, que esteve emigrada em França, ia sempre carregada de mau olhado para lá. Eu bem via a forma como a olhavam, com um ar invejoso, quando vinha de férias com a Mercedes.
– Quem é a Mercedes?
– A carrinha Mercedes.
– Ah, certo.
– Ainda há pouco tempo diziam que ele era um bocado frouxo e não sabia fazer contas...
– Quem? O quê?
– O Guterres. Não te lembras daquela cena do PIB? Agora é o maior. Acho estranho.
– Repara que pode vir a ocupar um dos cargos mais nobres do mundo e espalhar o nome de Portugal lá fora.
– Deve ser por aí.
– Por onde?
– Por ir lá para fora. Sempre é menos um a viver à conta do Estado. Eu vi logo. Ninguém fala bem dos vivos de graça.

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