Bob Marley
João Pedro George
12 de dezembro de 2018

Bob Marley

Para os rastafáris mais ortodoxos ou puristas, a decisão da UNESCO não pode senão constituir o golpe de misericórdia no reggae como manifestação de contracultura e de oposição à Babilónia

No dia 2 de Novembro de 1930, na Etiópia, também conhecida como Abissínia, reis, príncipes e chefes de Estado do mundo ocidental reuniram--se para assistir à proclamação de Ras Tafari Makonnen como Hailé Selassié I, o novo imperador daquela remota nação africana. Acontecimento de repercussão mundial, amplamente coberto pelos meios de comunicação, incluindo a National Geographic, a coroação de Selassié exerceria forte influência nos movimentos pan-africanos, em particular na Jamaica, sob domínio inglês desde o século XVII (só a 6 de Agosto de 1962 é que o país se tornou independente do Reino Unido).

Anos antes, naquela ilha das Caraíbas, o carismático e controverso líder Marcus Mosiah Garvey (1887 -1940), apontara para a Etiópia e dissera aos seus seguidores: "Olhem para Leste, para África, onde um negro será coroado Rei.


Saberão: a vossa redenção está próxima." Os títulos que Selassié usou – Rei dos Reis, Senhor dos Senhores, Leão Conquistador da Tribo de Judá (imagem utilizada pelo profeta Isaías para se referir ao Messias), Eleito de Deus –; as palavras carregadas de simbolismo e de referências bíblicas (proclamou -se descendente do Rei David e do seu filho, o Rei Salomão); a homenagem prestada pelo mundo branco através dos seus máximos representantes; a antiguidade da Etiópia e o facto de ser, naquela altura, entre o colonialismo europeu, um dos poucos países africanos independentes e soberanos (em 1896, os exércitos de Menelik II tinham derrotado as forças italianas invasoras, na Batalha de Aduá), tudo isso convenceu muitos jamaicanos de que a previsão de Garvey se estava a cumprir e que Ras Tafari era uma reencarnação de Jesus Cristo, que regressava finalmente para os libertar e redimir.

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