Os talibãs
Pedro Marta Santos
19 de maio de 2020

Os talibãs

Há uma cortina escura de irracionalidade no discurso ideológico, uma crença de que sabemos como o mundo realmente é. Tal como a religião, a ideologia transborda de fundamentalistas e extremistas

Para se ser talibã não é preciso militar no Emirado Islâmico do Afeganistão. Os optimistas garantem que o mundo terá de mudar após sairmos do buraco em que estamos enfiados. Se a actual babugem opinativa e raiva aspergida nos media se mantiver após a tempestade Covid-19, o mundo terá mudado para pior.

Depois de trégua breve nas primeiras semanas, o olhar ideológico sobre a pandemia saiu da toca, replicando-se como o vírus. Para os extremistas à direita, todos os números são manipuláveis – Portugal, afinal, não é um razoável sucesso mas uma vergonha política e sanitária, e o The New York Times, o The Guardian ou o El País são corjas de fedelhos ignorantes. Para os extremistas à esquerda, o comportamento do Governo nesta fase da pandemia não foi menos do que imaculado.

A ideologia parece estar tão incrustada como a fé no nosso cérebro reptiliano. À semelhança da religião, a ideologia dispensa uma verificação substantiva dos factos. É surpreendente ler o trabalho do neurocientista e filósofo Sam Harris sobre o fundamentalismo religioso e verificar quão ele se aplica ao extremismo ideológico. Para cada neurónio que recebe o seu estímulo do mundo exterior, existem outros 10 a 100 mil que não o fazem. O cérebro fala essencialmente consigo próprio. Assim, procuramos sempre a realidade que se conforma à nossa visão prévia do mundo, e afastamo-nos dos factos que possam contradizer essa visão.

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