O puro raciocínio de Licínio
Pedro Marta Santos
07 de janeiro de 2020

O puro raciocínio de Licínio

O livro mais vendido na última década foi As 50 Sombras de Grey, de E.L. James. A obra não conta a história de um banco que pagava 2.000 euros à mulher do presidente para lhe dar estabilidade emocional

Entre 2016 e 2018, o crédito agrícola (CA) pagou 2.000 euros líquidos mensais a Maria Ascensão, a mulher do presidente do grupo, Licínio Pina, para que Maria proporcionasse "estabilidade emocional" ao marido no exercício do cargo. O pagamento foi entretanto suspenso, após uma polémica suscitada por cartas anónimas que incluiu a intervenção do Banco de Portugal. A controvérsia é indecente a vários títulos. Em primeiro lugar, a estabilidade emocional é nuclear no exercício de qualquer cargo de grande responsabilidade e de prestígio elevado. Preferiam que Licínio se dedicasse ao lenocínio? Um homem que se preze precisa de ter as camisas limpas e as ideias claras para se comprometer por inteiro com a profissão que escolheu (ou no caso do presidente do CA, que o escolheu a ele; este indivíduo é um predestinado).

Quantos de nós, machos esclarecidos cuja masculinidade é diariamente atacada em todas as frentes – e, pior, arremetida por trás em nome das sevícias do politicamente correcto -, não gostariam de oferecer um subsídio à companheira que está acorrentada, perdão, angustiada em casa, a braços com afazeres domésticos e ocupações indignas como professora de Geografia ou proctologista, proporcionando-lhe assim o mínimo de conforto? Como Licínio bem frisou em missiva enviada em Agosto de 2018 a todas as agências do CA, "a minha esposa é o meu factor de equilíbrio e sempre me ajudou".

Haverá desígnio mais nobre do que equilibrar um cônjuge na corda que bamboleia sobre o precipício da licenciosidade? Se algum pecado Licínio cometeu, foi o da avareza. 2.000 euros é pouco, reles esmola para quem serve de fio de prumo à empreitada da gestão bancária patriótica. 20 mil seria mais adequado. E nunca subtraído ao vencimento bruto do chefe de família. Onde está a bruteza de gesto tão terno, de obra tão brava? O Banco de Portugal devia ter vergonha. Sobretudo nesta quadra, a ascensão de Maria merece-nos outro respeito. 

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