Cheirar
Pedro Marta Santos
05 de novembro de 2019

Cheirar

Deveríamos sair de casa, pôr tampões nos ouvidos, ignorar os apelos visuais e seguir o caminho que o nariz nos indicasse. O aroma a canela que transpõe a porta da confeitaria, o odor da roupa húmida a secar na corda, o eucalipto no jardim da parada

o olfacto é a minoria étnica dos sentidos. Prestamos atenção desmedida ao que vemos e ouvimos. Dedicamos tempos infinitos a descrever as paisagens, monumentos, ruas, filmes, quadros que olhámos ou os sons, insultos, piropos, comentários, discos que ouvimos. Mas quantos minutos reservamos aos odores? Quantas horas guardamos para os aromas? A falta de interesse pelo cheiro traz água no bico (até o palato dá 10 a zero ao olfacto no campeonato do quotidiano). Uma vida sem aromas cheira a esturro.

Deveríamos sair de casa, pôr tampões nos ouvidos, ignorar os apelos visuais e seguir o caminho que o nariz nos indicasse. O aroma a canela que transpõe a porta da confeitaria. O cheiro que salta, como uma pena de trovador, do chapéu de feltro preto do alfarrabista, misturado com o mofo e o travo do couro das encadernações dos livros antigos. O odor a roupa húmida, a secar na corda amarela – ou será lilás? Não olhe – da varanda da vizinha. As especiarias que transbordam do restaurantezinho de kebab. A resina, a tintura de almíscar, um par de lírios.

O eucalipto no jardim da parada. Dez minutos por dia de ginástica do olfacto. A seguir, como sugere Brienne Yudkowsky no seu blogue, promoveríamos excursões de odores com família e amigos. E decidiríamos retroceder, substituindo as benzodiazepinas pelas memórias do olfacto. Os sabonetes de alfazema na casa da avó. Aos sábados à tarde, o açúcar em pó dos bolos maternos. As agulhas de pinheiro do bosque misturadas com o aroma salgado do mar. O perfume dos lençóis lavados, frescos como violetas acabadas de colher. O cheiro da pele, aos 15 anos, num passeio secreto a dois.

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