Anna tem dois n
Pedro Marta Santos
24 de dezembro de 2019

Anna tem dois n

Que significará hoje este nome – Anna Karina, um n a seguir ao outro – para os millennials? Talvez um póster num cineteatro restaurado de uma cidade antiga sobrevoada em low-cost

Anna tem dois n, e Anna Karina namorou n vezes com a nossa frágil imaginação. Só por Godard fê-lo em oito momentos, mas as imagens eram tão caras a Karina que olhares distintos como a noite do dia (os de Fassbinder, Jacques Rivette, Visconti, Cukor, Valerio Zurlini) também por ela se apaixonaram. Que significará hoje este nome – Anna Karina, um n a seguir ao outro - para os millennials? Talvez um póster num cineteatro restaurado de uma cidade antiga sobrevoada em low-cost. Ou quatro fotogramas de Pierrot le Fou, enfiados sub-repticiamente numa instalação sobre o fim do amor de um museu de arte moderna na Baviera. Os olhos de Hanne Karin Bayer – quem lhe mudou o nome para Karina foi outra escultora, da estirpe de Godard, Coco Chanel, pressentindo a discreta grandeza – eram capazes de cegar os mais incautos.

No cinema do Cinema, Anna é Nana (estamos em Vivre Sa Vie, de 1962, já ela dormia com Godard fora da tela e fora da caixa). Folha, pele e chuva do mesmo reino habitado por Joana d’Arc, olha para o ecrã onde Falconetti, a Joana D’Arc de Dreyer, pestanas queimadas pelas velas da Inquisição, é preparada para a fogueira. Nem Anna nem Nana – nem a Falconetti – acreditam que a voz dos anjos havia condenado Joana D’Arc. Fora a voz dos homens. Os lábios de Anna secam, como se o calor das tochas que abrasam a garganta da santa pudesse quebrar os vidros das janelas, fogueando cinco sentidos. Mas os olhos enchem-se de água, um azul de salto mortal, oceano nórdico capaz de derreter a intolerância como se esta fosse um icebergue. As lágrimas saem dos olhos da Falconetti, percorrem o rosto de Karina e desaguam na nossa boca.

Joana D’Arc chorava pela História. Renée Falconetti chorava pela história. Anna Karina chorava pela estória. Nós choramos pelo cinema. Um espelho dentro de um espelho dentro de um espelho, a olhar para o pretérito perfeito. Seria a morte? Ou será que José Lopes, o actor que vivia numa tenda junto à estação de Rio de Mouro, morreu a olhar para a Anna com dois n? Lopes e Karina sempre quiseram viver a vida deles.
Anna, se me ouves, olha para mim mas não me cegues. É Natal. 

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