A cultura deu à Costa
Pedro Marta Santos
02 de junho de 2020

A cultura deu à Costa

Já de pijama fofo, sem estampados de Almada ou de Pomar, lançou os dedos à mesinha: nada. O volume de Camilo escapulira-se, e nem um Afonso Cruz para a amostra. Antes de fechar os olhos ainda pensou: “É melhor dar 1 milhão de euros a estes gajos”

António Costa, natural de São Sebastião da Pedreira, filho de terra centenária, descendente de civilização milenar, achava tanta Graça à cultura que jurou protegê-la em 2015, renovando os votos de amor em 2019. Em 2021, é para isso que se levanta cada manhã, contemplando num orgulho supimpa as paredes vazias do quarto, dos corredores, da sala onde brilhavam dois Cargaleiros, um Batarda, três Armanda Passos. Liga a rádio – dado às analogias, aprecia vestígios analógicos –, ouvindo belíssima estática onde outrora se reproduziam os gags de Bruno Nogueira. Saindo de casa à pressa em fato de marca branca – os costureiros da Rosa & Teixeira haviam sido despedidos meio ano antes –, pede ao chauffeur que coloque música serena no leitor de CD (está com uma enxaqueca dos diabos). O motorista, embaraçado, diz que os CD, talvez por obras de magia negra, estão vazios – ainda ontem ali pululavam temas de Carminho, o Homens Temporariamente Sós dos GNR, a magnum opus de Pinho Vargas...

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