A companhia dos lobos
Pedro Marta Santos
21 de abril de 2020

A companhia dos lobos

De Quioto a Elvas, há lobos em todas as casas, recordando-nos o quanto devemos ao mundo dos bichos antes de nos tornarmos bestas. Porque os cães que tanto amamos não são mais do que lobos geneticamente modificados pelo convívio com o Homo sapiens

O mundo humano soçobrou, caindo num silêncio metálico. Mas a Natureza prossegue o seu curso. Invade campos, colinas, baías, arquipélagos, os ecossistemas que lhe roubámos nos últimos 5000 anos, reconquistando lentamente cidades, fontes de pedra, desfiladeiros de arranha-céus, miradouros urbanos, avenidas de asfalto, a civilização, tão precária como um saco de plástico ao vento (até o plástico já parece uma marca gentil da nossa pressa). As megalópoles, transformadas em mosteiros de clausura, sussurram um calmo desespero, apenas quebrado pelo canto dos melros-azuis, das cotovias, dos piscos-de-peito-ruivo, os olhos minúsculos e pretos contemplando a paragem do tempo humano – onde andam estes predadores sem piedade, perguntarão as aves? Sem resposta, reocupam os ramos dos jacarandás e dos rododendros, picando as janelas dos prédios, amansando as varandas cheias de roupa pingante, de robes, de pijamas, de sapatos de bebé. O planeta respira de alívio com a nossa terrível asfixia.

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