A arte de amar à distância
Pedro Marta Santos
28 de abril de 2020

A arte de amar à distância

Se a arte de amanhã tiver menos sexo, desejo e fisicalidade do que a arte de ontem, poderá ser um espelho dos nossos cem dias de solidão, mas não fará justiça ao que fomos, somos e queremos ser

Partindo do princípio de que ainda haverá artistas daqui a um ano (e espectadores com dinheiro para os ver), como será a arte da pós-pandemia? Parem, olhem para trás e imaginem por segundos um mundo suspenso em confinamento retroactivo. O Kiss de Prince transforma-se em "Skype" (ou, na versão do émulo fadista de Herman José, "Instagrama-me Todo"), o Every Breath You Take dos Police converte-se em "Keep Your Fucking Social Distance" e o sensualíssimo Constant Craving de K. D. Lang renomeia-se "Constant Craving (For Chocolat and Chips)". Em que deserto gelado dos sentidos jazeriam a Renascença, o Romantismo, o roman à clef, a pop, o punk? Os quadros de Rubens encher-se-iam de esqueléticos querubins e amantes por telepatia, O Beijo de Klimt terminaria com um juiz de comarca a ordenar que a osculada se atire do precipício para manter a cerca sanitária, e os dedos humano e Divino de O Dia do Juízo Final de Michelangelo entrariam em estado de emergência depois de devidamente desinfectados com álcool-gel.

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