Notícia

Pedro Marta Santos

Ninguém sabe nada

04.09.2018 09:00 por Pedro Marta Santos
O clã Balsemão pode não saber nada sobre o futuro da TV. Mas se ofereceu 1 milhão de euros por ano a Cristina, é porque a sua equipa comercial e de marketing lhe garantiu que ela valia todos os centavos.
Foto: Sábado

No fim dos anos 80, para solene irritação do establishment da Costa Oeste, o argumentista William Goldman, vencedor de dois Óscares da especialidade pelos guiões de Dois Homens e Um Destino (1969) e Os Homens do Presidente (1976), escrevia no seu livro de memórias/manual de escrita, Adventures in the Screen Trade (Grand Central Publishing): em Hollywood, relativamente aos filmes que podem ou não tornar-se êxitos de bilheteira, "ninguém sabe nada". Se o talento para Nostradamus dos executivos das majors era até então largamente sobrestimado, as túnicas de oráculos e adivinhos dos actuais magos dos media ou das telecom libertam hoje o mesmo aroma a visionária santidade, reunindo em seu redor hordas de editores, directores e administradores de comunicação em busca do Santo Graal da sobrevivência na economia digital. Ora, o problema é que, ontem como agora, ninguém sabe nada. Como tornar eficaz e rentável um modelo de negócio para um jornal, uma revista ou um canal de televisão num mundo de infinitos subgrupos de consumidores educados para a autoprogramação ou a microedição, que encaram o papel como uma tecnologia anacrónica e a TV de sinal aberto com grelha fixa como uma curiosidade arqueológica? O papel terá sempre algum valor intemporal (e com os conteúdos certos, mais-valia noticiosa e literária). Mas há uma verdade, no meio da ubíqua ignorância, que os patrões da Impresa e da Media Capital conhecem: a TV generalista de sinal aberto é um morto-vivo, e a telenovela em horário nobre nocturno o seu mais feroz coveiro. A interrogação que resta é saber quando o óbito se tornará definitivo.

Neste contexto, a transferência de Cristina Ferreira da TVI para a SIC parece uma vitória de Pirro. Mas Cristina, cujo aparelho fonético deveria ser desmontado para servir de base a um estudo científico sério sobre a estridência, superou a pobreza, a competição feroz e o preconceito marialva da "loira burra" - empresária sagaz, com uma licenciatura em História e um mestrado em Ciências da Comunicação, Cristina é tudo menos tonta - para se transformar na mais importante personal brand audiovisual portuguesa, incluindo uma revista lucrativa, um perfume que vendeu 8.000 unidades na primeira semana de lançamento e 750 mil seguidores no Instagram. O clã Balsemão pode não saber nada sobre o futuro da TV. Mas se ofereceu 1 milhão de euros por ano a Cristina, é porque a sua equipa comercial e de marketing lhe garantiu que ela valia todos os centavos. Porém, com as perdas inexoráveis de audiência global e o envelhecimento imparável do seu público-alvo, cheira, já não ao manto de sábios, mas ao fogo dos últimos cartuchos.

Santos e...

1

Com duas medalhas de ouro no campeonato do mundo de canoagem de velocidade, Fernando Pimenta tornou-se um dos melhores atletas nacionais de todos os tempos. Como as grandes figuras das chamadas "modalidades amadoras" na última década e meia - Nelson Évora, Naide Gomes, Inês Henriques, Telma Monteiro -, este Hércules de Ponte de Lima não é o reflexo de um aturado plano estratégico para o desporto português. O seu triunfo é fruto de qualidades inatas e de um incrível esforço individual. Os nossos campeões não são nossos, e muito menos pertencem aos políticos que se fotografam ao lado deles mas que nada fizeram para elevar a prática desportiva a eixo de desenvolvimento pátrio. São heróis solitários.

... Pecadores
2
Como se tivesse desaguado na sua exclusiva ilha deserta, Rui Rio não pára de meter água por omissão. Sozinho e mudo, prossegue o caminho que, como todos os profetas, apenas ele conhece, não dando cavaco a ninguém e ignorando olimpicamente os Santanas desta vida. Há caos na CP, no SNS, na CGD? Silêncio tumular. A Aliança do filho pródigo prepara-se para lhe roubar 2 a 4% nas próximas legislativas, abrindo um canal do Suez à maioria absoluta do PS? Mantém-se a hibernação. Este rio é tão misterioso que já ninguém se quer banhar nele.
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